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domingo, 25 de março de 2012

TRANSMITIR A FÉ




É na própria família que se forja o caráter, a personalidade, os costumes... e também se aprende a conviver com Deus. Uma tarefa que cada dia é mais necessária, como se assinala neste artigo.

Cada filho é uma prova da confiança de Deus nos pais, que lhes confia o cuidado e a orientação de uma criatura chamada à felicidade eterna. A fé é o melhor legado que se lhe pode transmitir; mais ainda, é a única coisa verdadeiramente importante, pois é o que dá sentido último à existência Deus, além disso, nunca confia uma missão sem dar os meios imprescindíveis para levá-la a termo; e assim, nenhuma comunidade humana está tão bem dotada como a família para facilitar que a fé enraíze nos corações.


O TESTEMUNHO PESSOAL


A educação da fé não é um mero ensinamento, mas a transmissão de uma mensagem de vida. Ainda que a palavra de Deus seja eficaz em si mesma, para difundi-la o Senhor quis servir-se do testemunho e da mediação dos homens; o Evangelho é convincente quando se vê encarnado.

Isto é válido de maneira especial quando nos referimos às crianças, que distinguem com dificuldade entre o que se diz e quem o diz; e adquire ainda mais força quando pensamos nos próprios filhos, pois não diferenciam claramente entre a mãe ou pai que reza e a própria oração; mais ainda, a oração tem valor especial, é amável e significativa, porque quem reza é a sua mãe ou o seu pai.


Isto faz com que os pais tenham tudo a seu favor para comunicar a fé aos filhos; o que Deus espera deles, mais do que palavras, é que sejam piedosos, coerentes. O seu testemunho pessoal deve estar presente diante dos filhos a todo o momento, com naturalidade, sem procurar dar lições constantemente.

Às vezes, basta que os filhos vejam a alegria dos seus pais ao confessar-se, para que a fé se torne forte nos seus corações. Não se deve desvalorizar a perspicácia das crianças, mesmo que pareçam ingênuas; na realidade, conhecem os seus pais, no bom e no menos bom, e tudo o que estes fazem – ou omitem – é para eles uma mensagem que os ajuda a formar ou a deformar.

Bento XVI explicou muitas vezes que as alterações profundas nas instituições e nas pessoas costumam ser promovidas pelos santos, e não pelos mais sábios ou poderosos: «Nas vicissitudes da história, [os santos] foram os verdadeiros reformadores que tantas vezes elevaram a humanidade dos vales obscuros nos quais está sempre em perigo de se precipitar; iluminaram sempre de novo» [1].

Na família acontece algo parecido. Sem dúvida, é preciso pensar no modo mais pedagógico de transmitir a fé, e formar-se para serem bons educadores; mas o que é decisivo é o empenho dos pais por quererem ser santos. É a santidade pessoal o que permitirá acertar com a melhor pedagogia.

"Em todos os ambientes cristãos conhecem-se, por experiência, os bons resultados que dá essa natural e sobrenatural iniciação à vida de piedade, feita no calor do lar. A criança aprende a pôr o Senhor na linha dos primeiros e fundamentais afetos, aprende a tratar a Deus como Pai e à Nossa Senhora como Mãe, aprende a rezar seguindo o exemplo dos pais. Quando se compreende isto, vê-se a enorme tarefa apostólica que os pais podem realizar e como têm obrigação de serem sinceramente piedosos, para poderem transmitir – mais do que ensinar – essa piedade aos filhos" [2].


AMBIENTE DE CONFIANÇA E AMIZADE

Vemos que muitos rapazes e moças – sobretudo, na juventude e na adolescência – acabam por afrouxar a fé que receberam, quando sofrem algum

tipo de prova. A origem destas crises pode ser muito diversa – a pressão de um ambiente paganizado, amigos que ridicularizam as convicções religiosas, um professor que dá as lições numa perspectiva ateia ou que põe Deus entre parêntesis –, mas estas crises ganham força quando aqueles que passam por elas deixam de expor às pessoas adequadas o que lhes está acontecendo.

É importante facilitar a confiança com os filhos e que estes sempre encontrem os pais disponíveis para lhes dedicarem tempo. Os jovens – mesmo os que parecem mais indóceis e desprendidos – desejam sempre essa aproximação, essa fraternidade com os pais. O segredo costuma estar na confiança. Que os pais saibam educar num clima de familiaridade, que nunca deem a impressão de que desconfiam, que deem liberdade e que ensinem a administrá-la com responsabilidade pessoal. É preferível que enganem alguma vez. A confiança que se põe nos filhos faz com que eles próprios se envergonhem de terem abusado, e se corrijam. Pelo contrário, se não têm liberdade, se veem que não se confia neles, sentir-se-ão levados a enganar sempre [3]. Não se deve esperar a adolescência para pôr em prática estes conselhos; podem ser aplicados desde muito cedo.

Falar com os filhos é das coisas mais gratas que existem e a porta mais direta para estabelecer uma profunda amizade com eles.

Quando uma pessoa ganha confiança com outra, estabelece-se uma ponte de mútua satisfação e poucas vezes desaproveitará a oportunidade de conversar sobre as suas inquietações e os seus sentimentos, o que é, por outro lado, uma maneira de se conhecer melhor a si próprio. Embora haja idades mais difíceis do que outras para conseguir essa proximidade, os pais não devem afrouxar no seu entusiasmo por chegarem a ser amigos dos filhos; amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta sobre os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável [4].

Nesse ambiente de amizade, os filhos ouvem falar de Deus de um modo agradável e atrativo. Tudo isto requer que os pais encontrem tempo para estar com os filhos e um tempo que seja “de qualidade”; o filho deve perceber que as suas coisas nos interessam mais do que o resto das nossas ocupações. Isto implica ações concretas, que as circunstâncias não podem levar a omitir ou a atrasar uma e outra vez; desligar a televisão ou o computador quando a menina ou o garoto pergunta por nós e se percebe que querem falar; reduzir a dedicação ao trabalho; procurar formas de recreio e entretenimento que facilitem a conversa e a vida familiar, etc.


O MISTÉRIO DA LIBERDADE


Ao utilizar a liberdade pessoal, as pessoas nem sempre fazem o que mais lhes convém, ou o que pareceria previsível tendo em conta os meios empregados. Às vezes, as coisas são bem feitas mas não saem como se esperava – pelo menos, aparentemente – e pouco serve culpar-se por esses resultados ou atribuir a culpa a outros.

O mais sensato é pensar como educar cada vez melhor e como ajudar outros a fazerem o mesmo; não há, neste âmbito, fórmulas mágicas. Cada um tem o seu próprio modo de ser, que o leva a explicar e a encarar as coisas de modo diverso. O mesmo se pode dizer dos educandos que, embora vivam num ambiente semelhante, possuem interesses e sensibilidades diversas.

Essa variedade não é, no entanto, um obstáculo. Aliás, amplia os horizontes educativos: por um lado, possibilita que a educação se enquadre, realmente, no quadro de uma relação única, alheia a estereótipos; por outro, a relação com os temperamentos e caráteres dos diversos filhos favorece a pluralidade de situações educativas.

Por isso, se bem que o caminho da fé seja o mais pessoal que existe – pois faz referência ao mais íntimo da pessoa, a sua relação com Deus –, podemos ajudar a percorrê-lo; e isso é a educação. Se considerarmos com calma na nossa oração pessoal o modo de ser de cada pessoa, Deus dar-nos-á luzes para acertar.

Transmitir a fé não é tanto uma questão de estratégia ou de programação, mas é facilitar que cada um descubra o desígnio de Deus para a sua vida. Ajudá-lo a que veja, por si próprio, que deve melhorar e em quê, porque nós, de fato, não mudamos ninguém, eles mudam porque querem.


DIVERSOS ÂMBITOS DE ATENÇÃO

Há diversos aspetos que têm grande importância para transmitir a fé. Um primeiro é talvez a vida de piedade na família, a proximidade a Deus na oração e nos sacramentos. Quando os pais não a “escondem” – às vezes involuntariamente –, esse convívio com Deus manifesta-se em ações que O tornam presente na família, de um modo natural e que respeita a autonomia dos filhos. Abençoar as refeições, ou rezar com os filhos pequenos as orações da manhã ou da noite, ou ensinar-lhes a recorrer aos Anjos da Guarda ou a ter manifestações de carinho com Nossa Senhora, são modos concretos de favorecer a virtude da piedade nas crianças, tantas vezes dando-lhes recursos que os acompanharão por toda a vida.

Outro meio é a doutrina; uma piedade sem doutrina é muito vulnerável perante o assédio intelectual que sofrem ou sofrerão os filhos ao longo da vida; necessitam de uma formação apologética profunda e, ao mesmo tempo, prática.

Logicamente, também neste campo é importante saber respeitar as peculiaridades próprias de cada idade. Muitas vezes, falar sobre um tema de atualidade ou de um livro poderá ser uma ocasião de ensinar a doutrina aos filhos mais velhos (isto, quando não sejam eles próprios que se nos dirijam para nos perguntarem).

Com os menores, a formação catequética que podem receber na paróquia ou na escola é uma ocasião ideal. Rever com eles as lições que receberam ou ensinar-lhes de modo sugestivo aspectos do Catecismo que talvez tenham sido omitidos, fará com que as crianças entendam a importância do estudo da doutrina de Jesus, graças ao carinho que os pais demonstram por ela.

Outro aspecto relevante é a educação nas virtudes. Quando há piedade e doutrina, mas faltam virtudes, os filhos acabarão pensando e sentindo como vivem, e não como lhes dite a razão iluminada pela fé, ou a fé assumida, porque pensada. Formar as virtudes requer salientar a importância da exigência pessoal, do empenho no trabalho, da generosidade e da temperança.

Educar nesses bens eleva o ser humano acima dos desejos materiais; torna-o mais lúcido, mais apto para entender as realidades do espírito. Aqueles que educam os filhos com pouca exigência – nunca lhes dizem que “não” a nada e procuram satisfazer todos os seus desejos – fecham-lhes as portas do espírito.

É uma condescendência que pode nascer do carinho, mas também do querer poupar o esforço que exige educar melhor, pôr limites aos apetites, ensinar a obedecer ou a esperar. E como a dinâmica do consumismo é de per si insaciável, cair nesse erro leva as pessoas a estilos de vida caprichosos e volúveis e introduzem-nos numa espiral de procura de comodidade que implica sempre um déficit de virtudes humanas e de interesse pelos outros.

Crescer num mundo em que todos os caprichos são saciados é uma pesada carga para a vida espiritual, que incapacita a alma – quase na raiz – para a doação e o compromisso.

Outro aspeto importante é o ambiente, pois tem uma grande força de persuasão. Todos conhecemos jovens educados na piedade que se viram arrastados por um ambiente que não estavam preparados para superar. Por isso, é preciso estar pendentes de onde se educam os filhos e criar ou procurar ambientes que facilitem o crescimento da fé e da virtude. É algo parecido ao que ocorre num jardim: nós não fazemos crescer as plantas, mas podemos sim proporcionar os meios – adubo, água, etc. – e o clima adequados para que cresçam.

Como aconselhava S. Josemaria aos pais: "procurai dar-lhes bom exemplo, procurai não esconder a vossa piedade, procurai ser puros na vossa conduta: então aprenderão e serão a coroa da vossa maturidade e da vossa velhice" [5].

A. Aguiló

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[1] Bento XVI, Discurso na Vigília da Jornada Mundial da Juventude de Colônia, 20-08-2005.

[2] S. Josemaria Escrivá de Balaguer, Temas Atuais do Cristianismo, n. 103.

[3] S. Josemaria Escrivá de Balaguer, Temas Atuais do Cristianismo, n. 100.

[4] S. Josemaria Escrivá de Balaguer, Cristo que passa, n. 27.

[5] S. Josemaria Escrivá de Balaguer, Tertúlia, 12-11-1972, em http://www.pt.josemariaescriva.info/artigo/educaccedilao-dos-filhos







terça-feira, 20 de dezembro de 2011

UM DIA DE NATAL

Sonia Rosalia Refosco de Oliveira




Nasceu o Menino em Belém. O céu ficou mais azul. A Estrela brilha me mostrando o caminho a seguir. Lá estou eu. Observo a cena mais linda que alguém poderia esperar. Por um instante não me atrevo a aproximar-me, tenho receio de ferir a beleza daquele momento com o meu pequeno "eu".


De onde estou, no meu cantinho escondido, posso ver a ternura no olhar de José, a doçura de Maria e a paz do Menino Jesus. Sei que sou atrevido, mas não consigo ficar longe. Preciso, sinto necessidade daquela ternura, daquela doçura e porque não dizer, de toda aquela paz. Quero segurar o bebê em meus braços. Mas... sou tão indigno, tão pequeno... O que posso fazer?


Maria Menina, Maria Doçura, Maria Mãe entende o meu olhar e me oferece, com a pureza do sorriso mais sincero, o Menino Jesus. Maria, minha Mãe, deixou-me segura-Lo, acaricia-Lo, beija-Lo.


Agora eu sei que posso encontrar o Menino nos braços de Sua Mãe todas as vezes que, por tristeza minha, vier a perde-Lo. E Ela que me ama loucamente, permitirá segura-Lo em meus braços sempre que dEla eu me aproximar.



E quando Maria estiver cansada, ajudo José a embalar o Menino. E se você quiser vir comigo, venha! Cantaremos canções de ninar e O beijaremos muito até que adormeça!!!



Um Feliz Natal e um Ano Novo repleto das mais grandiosas graças. São os sinceros desejos da equipe Olivereduc.


Abaixo segue um vídeo como presente de Natal a todos os nossos amigos.



quinta-feira, 7 de julho de 2011





Assinado por José Miguel Cejas
Data: 28 de março de 2011





No filme de Roland Joffe There Be Dragons, o cinema apresenta, pela primeira vez, a vida de São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei. Apesar de não ser um filme biográfico sobre sua figura, o espectador se questiona até que ponto o personagem do filme reflete claramente o verdadeiro personagem. Perguntamos a Constantine Anchel, pesquisador do Centro de Documentação e Estudos Josemaria Escrivá de Balaguer, da Universidade de Navarra.

Charlie Cox como Josemaría


- Josemaría Escrivá é o único personagem real entre os protagonistas do filme There Be Dragons. Embora seja um filme de ficção, você acha que o roteiro de Roland Joffe reflete seu caráter e sua atuação durante os anos abrangidos pelo filme?
Charlie Cox e São Josemaría Escrivá


- Há outros personagens do filme que têm algum suporte histórico neste filme de ficção, por exemplo, os pais de Josemaría e alguns dos primeiros membros do Opus Dei, como Isidoro Zorzano, Juan Jiménez Vargas e Pedro Casciaro. Este filme reflete uma série de traços da personalidade de Escrivá, embora, é claro, ele foi muito mais rico e mais profundo do ponto de vista espiritual e humano. Na minha opinião, Joffe, como roteirista e diretor, está mais preocupado em mostrar o sentido da história e da figura do jovem fundador que para mostrar com detalhe este ou aquele evento. Nesse sentido, a visão oferecida corresponde fielmente à personalidade e aos ensinamentos de São Josemaria: o significado do perdão, o seu zelo pelas almas, etc. Evidentemente, é um drama épico, e não um filme biográfico sobre sua figura. Tem muitos aspectos que não são apresentados, mas isto é um filme. Não é um livro de história.

Rara equanimidade

- No filme temos a impressão de que São Josemaria não toma partido com a divisão que produziu a guerra civil. Qual atitude manteve, realmente, o fundador diante da Segunda República e ante a rebelião militar e a guerra?

- Sua atitude foi sempre verdadeiramente sacerdotal. Na Segunda República sua atitude foi muito semelhante à de muitos outros espanhóis de diferentes tendências. No começo estava a expectativa, mas o aspecto anticlerical de muitas das leis promulgadas desde o início do primeiro governo da República desgostou-o profundamente, como a tantos católicos. Esta situação é agravada pela inação das autoridades diante de muitas das atrocidades que ocorreram contra a Igreja. Por exemplo, no dia 13 maio de 1931, em Madri, diante do perigo da massa popular incendiar o edifício do Patronato dos Enfermos onde morava, teve que mudar de casa com sua mãe e irmãos para um apartamento que estava próximo na rua Viriato, como conta em seu diário íntimo (1). Perante estes fatos, o seu conselho era o mesmo que repetiu muitas vezes ao longo de sua vida: "rezar, perdoar, compreender e desculpar." Nesse sentido, o filme There be dragons reflete muito bem sua insistência na necessidade da compreensão e do perdão. Manteve essa mesma postura durante a guerra civil: ninguém que conviveu com ele durante os turbulentos anos se lembrou de ter ouvido qualquer comentário sobre isso, nem mesmo uma avaliação do papel político e militar de Franco. Por exemplo, José Luis Rodríguez-Candela, que dividiu moradia com o fundador da Legação de Honduras durante vários meses, deixou escrito: “Era assombrosa a sua equanimidade para julgar fatos que por sua gravidade afetavam profundamente a todos”. E acrescentava: “Nunca se pronunciou com ódios nem com rancor ao avaliar qualquer pessoa (...). Doía-lhe o que estava acontecendo (...). E quando os outros celebravam vitórias, dom Josemaria permanecia calado”. Todos se lembram de que desejava com todas as suas forças o fim da guerra e o fim das mortes e do ódio, e sempre pediu perdão e reconciliação. Um de seus biógrafos, Vázquez de Prada, conta que uma vez foi vê-lo uma pessoa cujos parentes foram assassinados pelos comunistas num matagal, na bifurcação de uma estrada. Explicou a dom Josemaria que queria erguer uma grande cruz naquele lugar, em memória dos seus familiares mortos. “Você não deve fazer isso”, disse, "porque te move o ódio, não a cruz de Cristo, mas a cruz do diabo "(2). Outra testemunha privilegiada daquela época foi Pedro Casciaro, um membro do Opus Dei, que era filho de um presidente provincial da Frente Popular. Casciaro conta em seu livro de memórias que Escrivá “Nunca conversava sobre política: queria e rezava pela paz e pela liberdade das consciências, desejava, com seu coração grande e aberto a todos, que todos voltassem e se aproximassem de Deus" ( 3).

- No filme há uma perseguição contra a Igreja Católica, com assassinatos de padres e leigos. Qual foi a atitude de São Josemaria ante esses fatos?

- Sentia uma dor profunda, sempre cheia de perdão. Quando era um refugiado numa casa da rua Sagasta deram-lhe a notícia, como anotou em seu diário Manuel Sainz-los Terreros - do assassinato de um amigo especial, Don Pedro Poveda, fundador do Teresiano, o que lhe causou uma grande dor . Sua reação foi sempre profundamente sobrenatural.

O perdão e a reconciliação

- O filme é uma história de perdão e reconciliação. Será que São Josemaría teve uma maneira especial de viver estas virtudes em eventos na sua vida?

- Sim, porque, como muitos fundadores e pessoas que desbravaram novos caminhos na vida da Igreja, ele sofreu inúmeras incompreensões nos primeiros anos do Opus Dei, especialmente no início dos anos quarenta, na atmosfera rarefeita de sociedade espanhola após a guerra. Sua resposta a esses equívocos foi sempre o perdão. O cardeal Julian Herranz, que conviveu com ele durante muitos anos, relata em seu livro de memórias Deus e audácia que um dia, após sair de uma recepção num lugar de Roma, se encontrou com uma pessoa que o tinha difamado durante anos. Estava chovendo e são Josemaría se aproximou para perguntar se ele tinha meios para ir para sua casa. Esta pessoa disse que não, e o fundador se ofereceu para levá-lo de carro, junto com outro conhecido. Quando o deixaram em casa, esse conhecido disse friamente: - Não o entendo, Padre, esse senhor é uma das pessoas que mais o tem caluniado... E leva-o a sua casa, tão feliz! - Sim, sinto-me feliz, respondeu, porque Deus me deu a oportunidade de viver a caridade de Cristo (3).

- Há momentos no filme que aparece Josemaria mergulhado na dúvida. Foi assim mesmo? Por qual motivo?

- Suponho que se refere aos momentos de dúvida na ermida de Pallerols, na fuga pelos Pireneus. São Josemaria, novamente, naqueles momentos teve as mesmas dúvidas que já havia experimentado em Madri, antes de iniciar essa jornada. O que devia fazer? Manter-se em Madri, onde vivia sua mãe, seus irmãos e alguns membros do Opus Dei, ou tentar passar ao outro lado, onde pudesse exercer livremente o seu ministério sacerdotal, e onde também havia outros membros do Opus Dei para atendê-los espiritualmente? Mais que a incerteza que supunha essa saída clandestina, o que lhe preocupava era saber se estava cumprindo ou não a vontade de Deus. Naquelas circunstâncias, fez algo que nunca fez: pediu um sinal a Deus.

E reconheceu esse “sinal” em uma rosa de madeira estofada (ou dourada, segundo o site: http://www.pt.josemariaescriva.info/artigo/festa-do-encontro-da-rosa), que provavelmente vinha de um retábulo da Virgem, que encontrou entre os destroços daquela ermida (4). No meu parecer, Joffe conseguiu expressar esse episódio com grande vivacidade, numa das sequências mais bonitas e bem-sucedidas do filme.


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Notas
(1) Notas íntimas, n. 202, 20-V-1931, já citada em Vázquez de Prada, A., O Fundador do Opus Dei. A vida de Josemaría Escrivá de Balaguer, vol. I, Rialp, Madrid (1997), p. 359.

(2) Vázquez de Prada, A., O Fundador do Opus Dei. A vida de Josemaría Escrivá de Balaguer, vol. II, Rialp, Madrid (2002), p. 383.

(3) Herranz, J., Deus e audácia, Rialp, Madrid (2011).

(4) Vázquez de Prada, cit., A., vol. II, cap. X.


Padre, soy judía



O video que motivou Roland Joffé a dirigir o filme "There Be Dragons"
(duração: 2:15 min)


O senhor tinha ideias sobre o modo de apresentar a guerra civil espanhola ou sobre alguns personagens, como São Josemaría Escrivá?

Roland Joffé: Eu não sabia muito sobre Josemaría antes de que me pedissem para gravar o filme. Foi assim que aconteceu: um dia, um dos produtores do filme veio à Holanda para me convencer de que o fizesse. Trazia livros e materiais, incluído um DVD sobre Josemaría. Tivemos uma refeição muito agradável e, regressando a casa, a pé, pensava: “Não tenho vontade de fazer este filme. Tenho outro projeto ambientado na Índia e trabalhei muito para alcançá-lo”. Então eu pensava em rejeitá-lo. Era uma noite de verão, de modo que saí ao jardim, com uma taça de vinho na mão, pus o DVD no leitor e me sentei diante do computador para escrever uma breve carta que dizia: “Querido X, muito obrigado. Aprecio que tenha empreendido toda esta viagem, mas penso que verdadeiramente você deveria buscar em outro lugar”. Enquanto isso, o DVD continuava funcionando. Um momento da narração chamou minha atenção: Josemaría se dirigia a uma multidão, no Chile, talvez, ou na Argentina, não estou seguro do lugar, e uma jovem levanta a mão e diz: “Tenho uma pergunta, sou judia”. E Josemaría responde: “Sim, diga-me, por favor”. Ela acrescenta: “Meu mais fervente desejo é me converter ao catolicismo”. Josemaría: “É?” Ela continua dizendo: “Mas sou menor de idade e meus pais não me permitem”. Josemaría responde prontamente: “Seja muito boa com seus pais. Tenha paciência e reze. Não demonstre nenhum gesto de revolta. Está claro? Ame muito os seus pais [...] e jamais uma palavra de crítica a eles. Ame-os com toda alma. E demonstre-o com os fatos. De acordo? Será uma boa filha de Cristo se for uma boa filha de seus pais”. Ao ver esse momento do vídeo, dizia-me: “Que momento maravilhoso! Que momento inesperado, e sobretudo vindo de uma organização da qual todo o mundo esperaria que dissesse o contrário”. Estava lhando para meu computador e dizia: “Espere um momento”. Desliguei o DVD. Deixei de escrever a carta. Pus o chapéu de diretor de cinema e escrevi uma cena, em que Josemaría aparece com um homem, a ponto de morrer, a quem já conhecia, que lhe diz que é judeu e que seu sonho era se converter. Escrevi a cena do começo ao fim, sem deixar de pensar: “tenho realmente vontade de ver isso num filme. Mas não verei nunca, se não fizer o filme, verdade? Ou marcarei esta cena em outro filme?” No lugar da primeira carta, escrevi: “Querido X, estou verdadeiramente interessado neste projeto, com a condição de dispor de toda a liberdade de criação para fazê-lo como quiser, e se você aceitar o fato de que não sou muito brilhante e que farei o melhor possível, mas que tenho de seguir minha própria verdade. Se você estiver de acordo, gostaria verdadeiramente de realizar este projeto”. Isso é mais ou menos o que aconteceu. Eu não tinha nenhuma ideia preconcebida sobre Josemaría. Tinha escutado algo sobre ele, mas sobretudo foi essa passagem do DVD que suscitou meu interesse em realizar o filme.

quarta-feira, 28 de julho de 2010




"UMA ÁRVORE QUE CAI FAZ MAIS BARULHO QUE UMA FLORESTA QUE CRESCE"







O blog Claraval tem a enorme alegria de publicar a carta que o padre salesiano uruguaio Martín Lasarte, que trabalha em Angola, endereçou ao jornal norte-americano The New York Times no último 06 de abril. Nela expressa seus sentimentos diante da onda midiática despertada pelos abusos sexuais de alguns sacerdotes enquanto manifesta sua surpresa diante do desinteresse que o trabalho de milhares de religiosos suscita nos meios de comunicação.

Eis a carta.

Querido irmão e irmã jornalista: sou um simples sacerdote católico. Sinto-me orgulhoso e feliz com a minha vocação. Há vinte anos vivo em Angola como missionário. Sinto grande dor pelo profundo mal que pessoas, que deveriam ser sinais do amor de Deus, sejam um punhal na vida de inocentes. Não há palavras que justifiquem estes atos. Não há dúvida de que a Igreja só pode estar do lado dos mais frágeis, dos mais indefesos. Portanto, todas as medidas que sejam tomadas para a proteção e prevenção da dignidade das crianças será sempre uma prioridade absoluta.

Vejo em muitos meios de informação, sobretudo em vosso jornal, a ampliação do tema de forma excitante, investigando detalhadamente a vida de algum sacerdote pedófilo. Assim aparece um de uma cidade dos Estados Unidos, da década de 70, outro na Austrália dos anos 80 e assim por diante, outros casos mais recentes...

Certamente, tudo condenável! Algumas matérias jornalísticas são ponderadas e equilibradas, outras exageradas, cheias de preconceitos e até ódio.

É curiosa a pouca notícia e desinteresse por milhares de sacerdotes que consomem a sua vida no serviço de milhões de crianças, de adolescentes e dos mais desfavorecidos pelos quatro cantos do mundo!


Penso que ao vosso meio de informação não interessa que eu tenha precisado transportar, por caminhos minados, em 2002, muitas crianças desnutridas de Cangumbe a Lwena (Angola), pois nem o governo se dispunha a isso e as ONGs não estavam autorizadas; que eu tenha tido de enterrar dezenas de pequenos mortos entre os deslocados de guerra e os que retornaram; que nós tenhamos salvo a vida de milhares de pessoas no México com apenas um único posto médico em 90.000 km2, assim como com a distribuição de alimentos e de sementes; que nós tenhamos dado a oportunidade de educação, nestes 10 anos de escolas, para mais de 110.000 crianças...

Também não é do vosso interesse que, com outros sacerdotes, tivemos de socorrer a crise humanitária de cerca de 15.000 pessoas nos aquartelamentos da guerrilha, depois de sua rendição, porque os alimentos do Governo e da ONU não estavam chegando ao seu destino.

Não é notícia que um sacerdote de 75 anos, o padre Roberto, percorra, à noite, a cidade de Luanda, curando os meninos de rua, levando-os a uma casa de acolhida, para que se desintoxiquem da gasolina; que alfabetize centenas de presos; que outros sacerdotes, como o padre Stefano, tenham casas de passagem para os menores que sofrem maus tratos e até violências e que procuram um refúgio.

Tampouco que Frei Maiato, com seus 80 anos, passe casa por casa confortando os doentes e desesperados.

Não é notícia que mais de 60.000 dos 400.000 sacerdotes e religiosos tenham deixado sua terra natal e sua família para servir os seus irmãos em um leprosário, em hospitais, em campos de refugiados, em orfanatos para crianças acusadas de feiticeiras ou órfãos de pais que morreram de Aids, em escolas para os mais pobres, em centros de formação profissional, em centros de atenção a soropositivos... ou, sobretudo, em paróquias e missões dando motivações às pessoas para viver e amar.

Não é notícia que meu amigo, o padre Marcos Aurélio, por salvar jovens durante a guerra de Angola, os tenha transportado de Kalulo a Dondo, e ao voltar à sua missão tenha sido metralhado no caminho; que o irmão Francisco, com cinco senhoras catequistas, tenham morrido em um acidente na estrada quando iam prestar ajuda nas áreas rurais mais recônditas; que dezenas de missionários em Angola tenham morrido de uma simples malária por falta de atendimento médico; que outros tenham saltado pelos ares por causa de uma mina, ao visitarem o seu pessoal. No cemitério de Kalulo estão os túmulos dos primeiros sacerdotes que chegaram à região... Nenhum passa dos 40 anos.


Não é notícia acompanhar a vida de um Sacerdote “normal” em seu dia a dia, em suas dificuldades e alegrias, consumindo sem barulho a sua vida a favor da comunidade que serve. A verdade é que não procuramos ser notícia, mas simplesmente levar a Boa-Notícia (Evangelho = Boa-Notícia), essa notícia que sem estardalhaço começou na noite da Páscoa. Uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que cresce.

Não pretendo fazer uma apologia da Igreja e dos sacerdotes. O sacerdote não é nem um herói nem um neurótico. É um homem simples, que, com sua humanidade, busca seguir Jesus e servir os seus irmãos. Há misérias, pobrezas e fragilidades como em cada ser humano; e também beleza e bondade como em cada criatura...

Insistir de forma obsessiva e perseguidora em um tema perdendo a visão de conjunto cria verdadeiramente caricaturas ofensivas do sacerdócio católico na qual me sinto ofendido.

Só lhe peço, amigo jornalista, que busque a Verdade, o Bem e a Beleza. Isso o fará nobre em sua profissão.


Em Cristo,
Pe. Martín Lasarte, SDB.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Vídeo sobre a Igreja Católica


Recebemos esse vídeo e gostaríamos de compartilhá-lo com os amigos do blog Claraval.



Aos que desejarem acessar o vídeo original (sem legendas)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009



DIA NACIONAL EM FAVOR DA FAMÍLIA





Relato do Casal Toninho e Silvana
Coordenadores da Pastoral Familiar da Comunidade São Marcos


Tema: “Família, agente principal na defesa e no cuidado da vida”
Lema: “Família, Igreja doméstica, caminho para o discipulado”

A Comunidade São Marcos realizou no último dia 16 de Agosto de 2009, o 18º DIA nacional em favor da Família. Este foi o segundo ano consecutivo em que todo o trabalho de uma semana inteira, foi concentrado num único dia.

A abertura oficial iniciou-se com a Celebração da Santa Missa, presidida por Dom Joaquim Justino Carreira, Bispo auxiliar da Região Episcopal Sant’Ana, que em sua homilia ressaltou a importância da Igreja Doméstica, para que educadas nas Leis de Deus, as famílias possam ser promotoras da vida em todos os segmentos da sociedade.
























Palestra do prof. Valter de Oliveira

Seguindo as programações, tivemos em nossa companhia os convidados e palestrantes: Dra. Alice Teixeira Ferreira, Dr. Aleksandro Clemente, Professor Valter de Oliveira e família, que participaram e compartilharam conosco desta grande alegria, de celebrarmos juntos o 18º dia nacional em favor da família São Marcos. Tivemos também a palestra do casal Francisco e Madalena, a peça teatral apresentada pelos alunos da catequese, o vídeo do testemunho de Gianna Gensen, (1) sobrevivente de um aborto, narrado pela Sra. Márcia, e os testemunhos das mães Maria Lídia e Ana Lucia sobre a defesa da vida.

Palestrantes e equipe de organizadores.

A banda “Fonte de Luz” animou e fez o nosso Dia da Família mais alegre. Todo mundo cantou, dançou, celebrou e rezou louvando a Deus. Nossos agradecimentos ao casal Jefferson e Aline e a toda banda pela ajuda!

Ao final do evento, foram sorteados um GRILL e um MICRO SYSTEM PHILIPS entre os participantes.

Tivemos participação recorde de mais de 350 pessoas entre adultos e crianças. Contamos com o apoio da Pastoral da Juventude que ficou encarregada pela recepção dos convidados e recreação das crianças. Tudo ficou sob responsabilidade do casal coordenador geral João Carlos e Lívia, e do casal apresentador Paulo e Cida, que souberam conduzir com muita competência toda a programação. A equipe da Pastoral Familiar se encarregou da organização geral do evento, e aproveita para agradecer o empenho e dedicação de todas as pessoas que se doaram e trabalharam para que tudo ocorresse conforme os nossos objetivos.

A Comunidade São Marcos, através dos Padres José Radici e Spirito Sevega, agradecem a todos que participaram deste 18º Dia Nacional em favor da família e ressaltam a importância deste evento, que proporcionou a todas as famílias participantes, um momento de reflexão sobre os temas, palestras e depoimentos apresentados. Todos os temas falaram sobre A FAMÍLIA, agente principal da defesa e cuidado da vida e A FAMÍLIA, Igreja doméstica, caminho para o discipulado.

“Todos os temas, foram muito bem escolhidos” disseram! Parabéns Comunidade São Marcos!

Coordenação Pastoral Familiar
Toninho & Silvana


NOSSOS AGRADECIMENTOS


O Blog Claraval, em nome de toda família Oliveira, não poderia deixar de manifestar sua alegria pelo belo trabalho realizado pela Comunidade São Marcos em favor da Família.

Sentimo-nos honrados por ter participado deste evento que, do princípio ao fim, cumpriu com sua proposta de defender a Família e colocá-la como agente principal na defesa da vida.

Durante a Santa Missa, o sermão de Dom Joaquim foi de grande profundidade e deixou vários pontos para reflexão. O padre José, de uma delicadeza sem par, esteve sempre presente e solícito para com todos, um verdadeiro anfitrião.

Dentre todos os organizadores que trabalharam impecavelmente, quero ressaltar o trabalho incansável dos jovens que cuidaram primorosamente das crianças. Como mãe, sei que não foi fácil e que sem a participação desses jovens, o evento não teria tido o sucesso que teve.

Desde os primeiros contatos com o casal Toninho e Silvana, pudemos perceber que estávamos trabalhando com pessoas muito sérias e desejosas de fazer participar a outros, a importância da Família dentro da sociedade.

Antes do evento, Valter teve um encontro com todos os organizadores e com os outros palestrantes. Voltou muito animado e encantado com as pessoas que conheceu. Desde então, fez o possível para que toda nossa família pudesse conhecê-los também. Nada fácil para quem tem 7 filhos com idades entre 26 e 4 anos. Normalmente, todos têm suas atividades programadas, mas Valter estava tão empolgado que moveu a todos, inclusive nosso futuro genro.

Queremos agradecer ao padre José Radici e a todos os organizadores deste 18º Dia da Família pelo convite, pela delicadeza com que fomos tratados e pela chance de termos novos amigos.

Deixamos aqui, o vídeo feito por nosso filho Paulo que, infelizmente, não pôde estar presente no dia, mas não poderia deixar de contribuir com essa importante iniciativa da Comunidade São Marcos.

Parabéns a todos e nosso muito obrigado!

Sonia, Valter e família



Apresentação sobre a Família

Produzido por Paulo Henrique de Oliveira

NOTAS

1. O leitor pode ver esse vídeo comovente em nosso blog, postado no dia 31 de maio de 2009. Vale a pena conferir!

sábado, 16 de maio de 2009


O INVEJOSO E O AVARENTO


Valter de Oliveira


“O justo mostra o caminho ao seu próximo, mas o caminho dos injustos extravia a eles próprios” (prov.12, 26).


Conta-se que havia um poderoso rei do Oriente que tinha dois ministros que, apesar de lhe terem prestado bons serviços, começaram a lhe causar preocupações. O primeiro deles foi picado pela mosca da inveja (1). Esta ia crescendo cada vez mais e o ministro foi ficando cada vez mais triste.(2)

O segundo tornou-se escravo da avareza. Queria tudo para si. Desejava loucamente os bens exteriores. Seu coração tornava-se cada vez mais duro, especialmente com os pobres e os fracos.

É fácil ver que, se não se emendassem, poderiam provocar sérios prejuízos ao reino. O rei resolveu fazer-lhes uma oferta, na realidade, uma prova. Quem sabe após ela abririam os olhos.

Os dois ministros foram convocados para comparecer ao Palácio Real. Toda a Corte fora convocada. Apresentaram-se ansiosos, afinal não lhes fora dito a razão de ali estarem. Ao chegarem diante do Monarca ajoelharam-se e colocaram o rosto no chão. Ouviram-no dizer com voz clara e firme:

Levantem-se!

Obedeceram prontamente. Após alguns segundos de profundo silêncio o rei disse as seguintes palavras:


Senhores Ministros.

Há muitos anos os senhores servem o meu reino e, devido a isto, creio que seja o momento de dar-lhes um prêmio especial...

Cada um dos ministros sentiu um calafrio interior: o que ganhariam?

...que cada um de vocês vai escolher. O que quiserem: terras, palácios, jóias, dinheiro... Só há uma condição: o que um escolher o outro receberá em dobro! Vocês têm uma semana para decidir.

E o rei ordenou que se retirassem.

Saíram perplexos, angustiados. Não se preocupavam com o que poderiam ter. Não sentiram gratidão, alegria, entusiasmo. A grande dor era: ele pode vir a ter mais do que eu! “A mente de quem pratica o mal é amarga” (prov.12,20).

Após uma dura semana voltaram a apresentar-se na Corte.

O rei perguntou: Então, decidiram?

O avarento deu um passo à frente, fez uma reverência e disse:

Majestade. Pensei muito. Vi tudo o que me destes nestes anos em que tive a felicidade de vos servir. Que mais posso querer? Será justo pedir mais alguma coisa? Não, meu senhor, não. Estou feliz. Não preciso de absolutamente mais nada.

Deu um passo para trás. Pensou consigo mesmo: Meu colega não terá nada...

Foi a vez do invejoso falar:

Não fez reverências. Olhou para o rei, para toda a Corte, e disse:

Eu quero que o senhor mande furar um de meus olhos...





“Coração tranqüilo é vida para o corpo, mas a inveja é cárie nos ossos” (prov.13, 30).

“A desgraça persegue os pecadores; a paz e o bem perseguem os justos” (prov.13,21).



Notas:

1. “Que é a inveja? Há uma definição de inveja que já é clássica. A inveja é a tristeza sentida diante do bem do outro” (p.5)

2. “A inveja é triste. O invejoso é infeliz. Se deixamos esse vício tomar conta de nós, o coração perde a capacidade de alegria. A pessoa invejosa anda triste, vive amargurada. O seu coração é como um buraco negro, que engole e anula todas as alegrias que lhe batem à porta, todas as luzes de felicidade possível que o convidam a sorrir.

Não há ninguém que, voluntariamente, queira ser invejoso ou deseje passar pelos sofrimentos que a inveja traz consigo, mas infelizmente são muitos, muitíssimos, os que padecem desse mal – mesmo que não o reconheçam de modo algum – e sofrem as suas conseqüências demolidoras.

“Se conseguíssemos extirpar da nossa alma a inveja, seríamos muito mais felizes, os nossos olhos se abririam, e passaríamos a descobrir inúmeras riquezas da vida, do mundo e dos outros que, agora, a inveja nos impede de perceber e desfrutar”. (p.3)

“O invejoso não suporta que os outros estejam acima dele ou sejam mais felizes ou mais queridos, e, por causa disso, dedica-lhes antipatia e até mesmo aversão”.

Essa inveja verdadeira é quase sempre uma tristeza inconformada – queixumenta, soturna ou irada –, que umas vezes leva ao pessimismo e acaba, doentiamente, na depressão e no complexo de inferioridade; outras conduz à revolta: contra Deus e contra o mundo, contra a vida e a sociedade, contra tudo e contra todos; ou ainda precipita numa psicose alucinada de competitividade, que faz a pessoa viver só em função dos outros – das outras –, com comparações contínuas e esforços desesperados para não ficar por baixo desse colega, daquela amiga, dos parentes da mulher, do vizinho de apartamento, do amigo do clube; e, por fim, pode descambar em raiva contra a pessoa invejada: chega-se a odiá-la até ao ponto de lhe desejar ou inclusive de lhe provocar o mal, de ter satisfação ao vê-la em dificuldades, e decepção ao vê-la prosperar” (p.7)

Texto extraídos do livro de Francisco Faus, A INVEJA. Quadrante, São Paulo, 2000. O leitor poderá acessar essa obra integralmente no site padrefaus.googlepages.com. Recomendamos vivamente. Afinal, como diz o autor, suas páginas “sobre a inveja pretendem ser, antes de mais nada, um convite à alegria.