terça-feira, 1 de março de 2022

CRISTÃOS REFORMADOS E A GUERRA NA UCRÂNIA

 Introdução  

Valter de Oliveira


Diante da invasão da Ucrânia pela Rússia há muitas perguntas: Quem tem razão? Quem devemos apoiar? Provocará uma Terceira Guerra  Mundial? Quais serão seus efeitos no Brasil? 

As respostas são as mais variadas. Envolvem inclusive muitas contradições. São analisadas conforme determinados interesses. Os especialistas chamados a fazer análises e prognósticos falam conforme a corrente geopolítica que defendem. Muito difícil para todos nós. Por mais que, eventualmente, o que é raro, tenhamos sólidos conhecimentos históricos, filosóficos, geopolíticos e até éticos. 

Em artigo na Gazeta do Povo o teólogo e pastor Franklin Ferreira toma partido pela Ucrânia como cristão reformado. Curiosamente usa os critérios de Santo Agostinho e São Tomás para afirmar que o posicionamento ucraniano é o correto. Isso apesar de reconhecer que os atuais projetos da União Européia, o da Rússia expansionista e o da China não devem ser apoiados por cristãos. 

O presente artigo complementa outros que foram publicados no site olivereduc.com nesta semana. 

A partir de amanhã postarei no site alguns artigos sobre a Quaresma. Em seguida voltarei a tratar da questão da guerra. Então, com mais informações, precisarei minha opinião particular sobre o tema. Por enquanto, como já escrevi, fica nossa solidariedade ao povo ucraniano. 

Segue o artigo de Franklin Ferreira.

Os cristãos diante da guerra na Ucrânia

Após o colapso da União Soviética, em 1991, a Ucrânia se tornou uma nação independente. Contudo, nas regiões de Donetsk e Luhansk, minorias russas começaram a reivindicar mais autonomia política. No final de 2010, o governo ucraniano buscou uma aproximação com a Europa Ocidental, a qual a Rússia se opunha. Em 2013, em meio a uma crise econômica, o presidente Viktor Yanukovych rejeitou um acordo com a União Europeia e iniciou uma reaproximação com o governo russo. A população ucraniana começou enormes protestos – retratados no documentário Winter on Fire – e o presidente renunciou em fevereiro de 2014. No mês seguinte, em meio à instabilidade política ucraniana, a Rússia anexou ao seu território a região da Crimeia. Em abril, uma revolta armada no leste da Ucrânia, insuflada por militantes pró-Rússia, levaram à separação das regiões de Donetsk e de Luhansk.

A invasão russa da Ucrânia

Depois de um longo impasse, no fim de 2021, o governo russo moveu uma enorme quantidade de tropas e equipamentos para a fronteira ucraniana. O presidente russo, Vladimir Putin, se opôs à aproximação da Ucrânia com o Ocidente e ao ingresso do país na OTAN. Ele via a Ucrânia, assim como outros países da Europa oriental, como parte da zona de influência russa, afirmando que a presença militar da OTAN no leste da Europa colocava a Rússia em perigo. Em 24 de fevereiro de 2022, após uma longa crise, que culminou no reconhecimento russo da independência das regiões de Donetsk e Luhansk, a Rússia lançou um ataque maciço à Ucrânia. Estamos, agora, no quarto dia de guerra, e até onde se sabe, as forças militares ucranianas têm infligido severas baixas ao invasor russo, que ainda tenta conquistar as principais cidades do país e as saídas para o Mar Negro e o Mar de Azov.

Mas, como Niall Ferguson escreveu: “Conheço a Ucrânia o suficiente para ter certeza de que a rendição não está nos planos. Um amigo ucraniano me disse que seu povo vai lutar contra o exército de Putin da mesma forma que os mujahideen afegãos lutaram contra o Exército Vermelho na década de 1980. Uma recente pesquisa de opinião do grupo de Estratégia Europeia de Yalta atesta a extensão do apoio popular à adesão à OTAN e à União Europeia, e a relutância da maioria dos ucranianos comuns em se submeter ao ataque russo”. No domingo à noite, pesquisas apontavam que 91% dos ucranianos apoiam as ações de seu presidente, Volodymyr  Zelensky, enquanto 70% creem numa vitória ucraniana que garanta a independência do país.

Não há nenhuma justificativa moral para a invasão russa da Ucrânia. Como Zachary B. Wolf destacou, a invasão russa é uma quebra contratual do direito internacional, pois a Ucrânia é um país independente, democrático e com presidente eleito que foi atacado. “As ações de Putin são um exemplo clássico do crime de agressão, que foi considerado o crime internacional supremo pelo Tribunal de Nuremberg após a Segunda Guerra Mundial”, ele escreveu. Não dá para entender como alguém pode defender uma barbárie como a perpetrada pela Rússia contra os ucranianos.

A fraqueza europeia

Em meio à invasão russa da Ucrânia, a fraqueza militar europeia foi exposta. Por exemplo, autoridades da Alemanha reconheceram que suas forças armadas não têm como proteger as fronteiras de seu país. Por exemplo, o Inspetor do Exército Alemão, general Alfons Mais, escreveu: “A Bundeswehr e o Exército que tenho o privilégio de liderar estão mais ou menos despidos. As opções que podemos oferecer aos políticos para apoiar a aliança são extremamente limitadas”. E a ex-Ministra da Defesa da Alemanha, A. Kramp-Karrenbauer disse: “Estou com tanta raiva de nós mesmos por causa do nosso fracasso histórico. Depois [das invasões russas na] Geórgia [em 2008] e na Crimeia e Donbass [em 2014], não preparamos nada que pudesse realmente deter Putin”. O mais chocante é que ambos os comentários foram postados no Twitter. Em 2018, em reunião da OTAN, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que “a Alemanha é refém dos russos porque 60% do gás que abastece o país vem da Rússia”. E “em vez de se proteger dos russos, o governo alemão vai gastar milhões com o gás que vai chegar de um novo gasoduto da Rússia”. Agora, os alemães resolveram aumentar o investimento militar e, depois de muita relutância, também enviaram equipamento militar para os ucranianos.

Mas, nas últimas décadas, a Europa se desmilitarizou e destruiu a noção de patriotismo em seu território. Gastou trilhões de euros com pautas como o multiculturalismo, o meio ambiente e as políticas identitárias. Ao mesmo tempo, a fé cristã tem sido constrangida e cerceada na Europa. Agora, os europeus estão à mercê dos anseios expansionistas da Rússia e dependente do gás que vem de lá. Enquanto as forças russas continuam a atacar a capital da Ucrânia, Kiev, os ucranianos arcarão com sofrimentos, privações, perdas e separações que virão. Diante dos heróis que estão tombando em defesa do país, como o fuzileiro Vitaliy Skakun Volodymyrovych, e Iryna Tsvila, uma veterana da Brigada de Resposta Rápida da Guarda Nacional da Ucrânia, mãe de 5 filhos, cantar a piegas Imagine diante de embaixada russa, como aconteceu em Budapeste, na Hungria, nessa última semana, é inútil. Aliás, as comoventes imagens de reservistas ucranianos se despedindo de suas famílias para ir para o campo de batalha para defender seu país da agressão russa lembra a frase de G. K. Chesterton: “O verdadeiro soldado luta não porque ele odeia o que está a sua frente, mas porque ele ama o que está atrás”.

O papel dos Estados Unidos no “Grande Jogo”

Os Estados Unidos, com Joe Biden na presidência, seguem o mesmo caminho europeu. Aliás, a eleição de Biden, um presidente senil, incapaz de formular uma frase, tornou o mundo um lugar muito perigoso – ainda que, em sua eleição, fosse celebrado por jornalistas que não mais informam, mas só fazem torcida, esperando que ele fosse trazer milagrosamente, através de seu palavrório woke, a paz definitiva. Sob o governo medíocre dos Democratas, os Estados Unidos vivem uma das piores crises políticas de sua história, experimentam inflação alta e aumento da violência nas grandes cidades, e desmoralização internacional.

A saída vergonhosa e humilhante dos Estados Unidos e da OTAN do Afeganistão foi criminosa. E sinalizou para a Rússia e a China que estes países podem fazer o que bem quiserem em suas áreas de interesse e os Estados Unidos e seus aliados ocidentais só falarão em sanções econômicas – e mais nada. Aliás, é preciso lembrar que a Crimeia foi conquistada pela Rússia no governo do inepto Barack Obama, e que tinha como seu vice-presidente Biden. Quando Putin interveio na Síria, tudo o que Obama fez foram discursos indignados. Agora, a Ucrânia é invadida no governo Biden. Não custa destacar que os países que apoiam Putin e a Rússia são ditaduras brutais como Irã, China, Coreia do Norte, Síria, Venezuela, Cuba, Bielorrússia e Nicarágua. Quando ditaduras brutais apoiam uma invasão injustificada, sabemos com certeza que algo está profundamente errado.

Diante da complacência e fraqueza ocidentais, Vladimir Putin avança para tentar se tornar o “Soberano de toda a Rússia: a Grande, a Pequena, e a Branca”. Seus heróis são Pedro, o Grande, Catarina, a Grande e os Romanov – aliás, o presidente russo afirma que Pedro, o Grande, é seu “líder favorito”. “Ele viverá”, declarou o presidente russo, “enquanto sua causa estiver viva”. Como Ferguson escreveu: “Qual foi a causa de Pedro? Em essência, fazer da Rússia uma grande potência europeia, capaz de igualar a Áustria, Grã-Bretanha, Prússia e França, tanto no poderio militar quanto nos fundamentos econômicos e burocráticos [...]. Nenhum historiador contestaria que ele conseguiu isso. Na Batalha de Poltava (8 de julho de 1709), o czar Pedro obteve a vitória mais importante de seu reinado, derrotando o exército de Carlos XII da Suécia, que havia sido uma das grandes potências durante o século 17. Poltava fica a cerca de 320 quilômetros a leste de Kiev, não muito longe de Luhansk e Donetsk. Esta é a história que inspira o atual czar Vladimir, muito mais do que os capítulos sombrios do reinado de terror de [Josef] Stalin, que será para sempre associado nas mentes ucranianas ao Holodomor, a fome genocida [...] infligida à Ucrânia em nome da coletivização agrícola [comunista, quando foram mortos cerca de 7 a 10 milhões de ucranianos]. É uma história que nos lembra o quão crucial foi a vitória no território que hoje é a Ucrânia para a ascensão da Rússia como grande potência europeia. Recorda-nos também que este território era tão disputado no início do século 18 como é hoje”.

Em suma: na atualidade, governos esquerdistas, como nos Estados Unidos e em grande parte da União Europeia, têm como foco principal políticas e causas identitárias e o crescimento da burocracia estatal, além da agenda climática – que levou a Alemanha a depender quase exclusivamente do gás e petróleo russo. Mas estes governos, ao reduzir a política de seus países a estes fins, se tornaram um perigo mortal para o Ocidente e para o resto do mundo. Na verdade, os esquerdistas no Ocidente são traidores da cultura greco-judaica que fundou o Ocidente, e podem terminar por entregar o Ocidente e seus aliados no Oriente Médio, África e Ásia numa salva de prata para a Rússia e a China. O Ocidente precisa recuperar com urgência sua herança intelectual e espiritual robusta, se quer ser, de fato, uma opção ao avanço de russos, chineses e islamitas.

Desafios para os cristãos

Os cristãos precisam perceber que estamos no meio de um conflito entre o globalismo pagão ocidental, o nacionalismo imperialista russo e o totalitarismo comunista chinês – ao mesmo tempo em que a Ucrânia era atacada, a China comunista continuava suas provocações na Ásia, enviando aeronaves militares para violar o espaço aéreo de Taiwan. Como cristãos, não há como apoiar nenhuma das três opções ideológicas – e nem está sendo mencionado o perigo que o islã político também representa para o Ocidente.

Diante dessas ameaças, será que os cristãos ainda podem defender uma noção de “guerra justa?” Diante da invasão russa à Ucrânia, os cristãos devem lembrar que há uma longa tradição cristã da ideia de uma guerra justa. Esse conceito pode ser encontrado nas obras de Agostinho de Hipona e, principalmente, nas de Tomás de Aquino. De acordo com esses escritores, normalmente as condições para uma guerra justa são sete: (1) a causa pela qual a guerra está sendo realizada tem de ser justa; (2) o propósito justo deve permanecer durante as hostilidades; (3) a guerra tem de ter a intenção de estabelecer um bem (4) ou corrigir um mal; (5) deve ser efetuada por meios aceitáveis; (6) deve ser apenas um último recurso (7) e deve ter o alvo de uma paz justa. A defesa da Ucrânia confirma todos os critérios de uma guerra de defesa e justa.

O poder da oração em meio à guerra

Em meio à guerra, sinais da vitalidade cristã aparecem na Ucrânia, como a imagem do ucraniano orando ao pé da cruz em Kiev. A demanda pelas Escrituras no país devastado pela invasão russa é tão alta que a Sociedade Bíblica da Ucrânia ficou sem cópias de Bíblias. Assim, em meio à guerra, os ucranianos estão se voltando à Palavra para encontrar esperança e consolo. Se tornou viral o vídeo, publicado pela Christian Emergency Alliance, de cristãos ucranianos adorando em uma estação de metrô em Kiev. Eles cantavam sobre o perdão, a salvação, a misericórdia, a alegria, a paz ao povo da Ucrânia. A luz do Messias Jesus, como revelado na Bíblia, brilha na escuridão da guerra.

Assim, esta semana, a World Evangelical Alliance (Aliança Evangélica Mundial), por meio de seu secretário geral, Thomas Schirrmacher, e a World Reformed Fellowship (Fraternidade Reformada Mundial), por meio de seu diretor internacional, Davi Charles Gomes, publicaram o seguinte chamado conjunto à oração. Como preâmbulo, Davi Charles Gomes escreveu: “Enquanto muitos buscam algum tipo de unificação global política, de mercado ou coisa e tal, ou ainda qualquer coisa que pretenda inverter o que Deus fez em Babel, a única agência verdadeiramente global e de escopo universal é a igreja visível de Cristo. A Igreja global, aquela manifestação visível do Reino de Cristo que se espalha por todo canto da terra, tem sido o sal e luz neste mundo tenebroso. Neste momento em que contemplamos estarrecidos a invasão da Ucrânia, duas agências para-eclesiásticas (que existem para dar apoio e suporte à Igreja Global), a WEA (World Evangelical Alliance) e a WRF (World Reformed Fellowship), representando milhares de organizações e centenas de denominações associadas e, assim, dezenas de milhões de membros, resolveram se manifestar conjuntamente e de forma singela”. Segue a declaração conjunta:

“Nós, líderes e membros da World Evangelical Alliance e da World Reformed Fellowship, expressamos nossa profunda consternação quanto aos recentes eventos na Ucrânia.

Instamos os líderes políticos e militares que cessem imediatamente todos os atos de hostilidade, pelo bem do povo da Ucrânia.

Pelos cristãos Evangélicos e Reformados, e por todo o povo ucraniano, empenhamos nossas orações ao Pai Celeste, que na Graça de Cristo ele os conforte e os proteja neste tempo tão sombrio.

Para cristãos Evangélicos e Reformados fora da Ucrânia, pedimos que se juntem a nós em súplice oração pelo povo ucraniano e instamos demonstrações de apoio a todas as pessoas da Ucrânia, mas especialmente às igrejas Evangélicas e Reformadas, às organizações cristãs e aos indivíduos cristãos na Ucrânia”.

Portanto, que os cristãos atendam ao chamado da Escritura: “Antes de tudo, peço que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças em favor de todas as pessoas. Orem em favor dos reis e de todos os que exercem autoridade, para que vivamos vida mansa e tranquila, com toda piedade e respeito. Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, que deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem, que deu a si mesmo em resgate por todos, testemunho que se deve dar em tempos oportunos” (1Timóteo 2.1-6).

Pois o que cabe nesse momento aos cristãos é, ao mesmo tempo que se portam com discernimento, orar e suplicar para que Deus tenha piedade de todos aqueles que estão nas regiões em conflito e de seu povo, batizado no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, na Rússia e na Ucrânia – assim como na Lituânia, Letônia, Estônia, Polônia e Taiwan. E que seu único Filho, o Messias e Senhor Jesus, retorne em triunfo para implantar em definitivo seu poderoso Reino de paz.

 https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/os-cristaos-diante-da-guerra-na-ucrania/





terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

NÃO COMPLIQUEMOS NOSSAS VIDAS 2

 

  

 Depois destas considerações (ver parte 1), poderemos enfrentar as aparentes contradições a que aludimos acima sem nos sentirmos demasiado atemorizados e sem tentarmos encontrar argumentos intelectuais para todos os passos.

O equilíbrio

Onde se encontra, pois, o equilíbrio entre:

    1. "Limitar-se a fazer", por um lado, e "deixar as coisas acontecerem", por outro?

    2. "Empenhar-se honestamente", e "não exagerar no esforço"?

    3. "Ser sincero", sem "levar tudo a sério"?

    4. "Deixar que seja Deus quem guie as nossas vidas", e "ter iniciativas próprias"?

    5. "Sermos nós mesmos", e "controlar o nosso ego"?

    Estas indagações não têm resposta simples em pura lógica: na verdade, a resposta consiste na "sabedoria para conhecer a diferença', ou seja, num sistema de orientação externo a nós mesmos. Muitas pessoas que vivem conforme estamos recomendando, fazem uso habitualmente da Oração da Serenidade:

    Senhor, dai-me serenidade

    para aceitar aquelas coisas que não puder mudar,

    coragem para mudar aquelas que puder,

    e sabedoria para conhecer a diferença. 

    E aí está a nossa resposta: o que importa é pedir continuamente a sabedoria necessária para conhecer a diferença. Ora bem, não se armazena sabedoria somente na cabeça, que é onde guardamos aquelas coisas que estamos continuamente a esquecer. Aliás, a sabedoria não é armazenada de maneira nenhuma; vem à mente e ao coração quando dela necessitamos, e não antes. 

    Contudo, mesmo que a procuremos, enganar-nos-emos de vez em quando, e era de esperar; mas vamos fazendo a experiência de que o mundo não vem abaixo por causa disso, e assim aprendemos a tomar as nossas próprias decisões e a viver com as consequências. E quando incidimos em algum erro, passamos a ter a capacidade de admiti-lo imediatamente e de retificar o nosso rumo. 

    E como saberemos que nos estamos afastando do ponto de equilíbrio e deixando de dar ouvidos à "sabedoria para conhecer a diferença"? É que, muito sutilmente, o ego vai-se apossando dos controles e nos leva a voar baixo e a perder velocidade. Mas temos um alarme que dispara nesses momentos: o medo, que nos avisa de que nos distanciamos do nosso Pai e voltamos a pretender dirigir nós mesmos o espetáculo.

    Este alarme, no entanto, está longe de constituir um desastre em si mesmo. Pelo contrário, foi instalado em nós para ajudar-nos a evitar os desastres: se deixarmos o Piloto reassumir os comandos, voltaremos à altitude de cruzeiro sem maiores problemas. Em outras palavras, as aparentes contradições que apontamos não devem causar-nos preocupação alguma, pois temos um sinal de alarme embutido que nos ajuda a manter o equilíbrio entre os extremos. Ou seja, não temos necessidade alguma de "conhecer as respostas" das contradições que apontávamos'. 

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Até aqui John Nugent mostrou-nos como complicamos nossas vidas "racionalizando tudo". No próximo post ele analisa mais dois complicadores: a tendência ao perfeccionismo e depositarmos em nós expectativas que não são razoáveis. 

Realmente gostamos de nos complicar... (V.O.)

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Fonte: Nugent. John D. - Nervos, Preocupações e Depressão - São Paulo: Quadrante, 1992. p. 98-100. 



    


sábado, 12 de fevereiro de 2022

NÃO COMPLIQUEMOS NOSSAS VIDAS

 Introdução


    

No livro "Nervos, preocupações e depressão, John D. Nugent, em nove capítulos, convida-nos a combater toda forma de negativismo, "e consequentemente à melancolia, apatia, ou depressão". Tudo isso, "quando não têm causas orgânicas" (...) parece derivar de uma atitude até certo ponto pagã, ou mais propriamente de uma compreensão insuficiente do cristianismo, mais em concreto da doutrina da Redenção. Essa espécie de cegueira interior (é assim que ele também denomina esse negativismo que toma conta da pessoa) supera-se, porém, quando há docilidade, isto é, a disposição de aprender mais, de compreender o que Deus quis dizer-nos através dessas mesmas circunstâncias particulares à luz da Revelação Divina. (1)

    No capítulo 1, "Conhecendo-nos" a nós mesmos Nugent revela que foi um homem que por mais de 20 anos teve sérios problemas oriundos de viver focado nos aspectos negativos da vida, reais ou potenciais. Só veio a melhorar quando decidiu a mudar suas atitudes. Certamente isso ocorreu com o auxílio da graça. E ele garante que o milagre que aconteceu com ele também viu em outros que tomaram decisões semelhante à sua. Resolveu apresentar seu caminho aos outros de modo simples, que está relacionado com a fé mas não é propriamente um livro religioso. 

    Não é minha intenção aqui convidar o leitor a ver um resumo da obra. Mais útil, parece-me é que procurem conhece-la. Vale a pena. É um livro pequeno, da Quadrante. 110 páginas que podem ser lidas rapidamente. Contudo, talvez seja mais útil ler e refletir um capítulo por dia. 

    No oitavo capítulo, "Não complique", ele faz observações que são úteis ainda que não tenhamos visto o conjunto da obra. Vou reproduzi-la aqui no blog em duas partes. Os subtítulos são do blog. (V.O.)

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    "De todas as pessoas que existem nesse mundo, nós somos aquelas que mais necessidade têm de carimbar a frase "Não complique" no dorso de nossas mãos. Se tivermos um histórico pessoal que inclua doenças (...), estados de ansiedade ou padrões de pensamento que tendam a tornar-se obsessivos, a razão é que construímos no nosso íntimo o hábito mental de intelectualizar tudo. Olhemos para trás e vejamos de onde se originou esse hábito.

A origem da mentalidade obsessiva (2) 

    Quando éramos crianças, os nossos professores costumavam dizer-nos: "Pense, pense. Use a cabeça". E tinham razão, como é evidente. (...) Mas a verdade é que abusamos dessa recomendação e imaginamos que, se acumulássemos um estoque suficiente de respostas e usássemos a nossa razão, seríamos capazes de resolver qualquer problema que se apresentasse.

    Durante algum tempo, esse método funcionou. Com efeito, conseguimos equacionar todas as questões que enfrentamos - até certo ponto. E então a vida traçou meia dúzia de curvas, o método do "pense, pense, pense", deixou de funcionar, e todas as certezas que tínhamos desfizeram-se em cinzas.

Erramos, e não aprendemos. Complicamo-nos.

    Mas não aprendemos a lição. Fomos continuando a pensar com intensidade ainda maior. Pusemos os nossos cérebros a dar voltas, tentando prever as diversas hipóteses e encontrar a resposta para os nossos problemas. E neste processo tornamo-nos pessoas imensamente complicadas, incapazes de aceitar que há inúmeros problemas nessa vida que não se resolvem apenas com o raciocínio, e que há outros que não têm solução. Não aceitamos que toda a realidade é um entrelaçado de coisas materiais e espirituais, cuja solução não se encontra exclusivamente no plano humano. Agora temos de reverter todo o processo e aprender a usar a nossa cabeça de maneira mais razoável. 

    O que fomos descobrindo até agora são verdades revestidas de uma bela simplicidade. Mas o fato de serem "simples" não significa necessariamente que sejam fáceis. ; significa apenas que não são complicadas. Nelas encontramos, porém, algumas contradições aparentes, que teremos de resolver, se ainda nos sobra paciência suficiente para enfrentarmos mais algumas contradições...; e, para resolvê-las - acredite se quiser - , teremos de pensar sobre a maneira como pensamos.

Indios: " O homem branco é louco. Pensa com a cabeça.

    Os índios Pueblos do Novo México deixaram perplexo o psiquiatra Carl Jung ao afirmarem que consideravam o homem branco louco por pensar com a cabeça. Com efeito, parece-me que não é à toa que nos referimos a gente com "a cabeça desarranjada", ou que damos pancadinhas na testa quando encontramos alguém mais doido do que nós mesmos. O índio pensa com o coração, e as tribos mais primitivas até mesmo com o estômago... E se observarmos o caos crescente em que a Civilização Ocidental vem mergulhando, não estaria inteiramente fora de propósito perguntarmo-nos se, afinal de contas, esses povos não teriam alguma razão. 

E a intuição?  

  

 Na medida em que crescemos, todos vamos desenvolvendo um certo respeito pelo "outro lado" de nossas mentes. Começamos a utilizar o lado receptivo e intuitivo - também receptivo em relação às luzes de Deus-; apendemos que boa parte de nosso "pensamento" pode ser tranquilamente confiado aos juízos habituais da nossa boa consciência, e que podemos apoiar-nos com segurança na intuição que nos diz quando pegar ou largar. Passamos a enfrentar a vida com renovada confiança em que, se deixarmos de lado os furiosos questionamentos cerebrinos, o nosso eu "sonhador" terá mais liberdade para desempenhar bem o seu papel no palco; e descobriremos assim que a mente humana é um instrumento muito mais sofisticado e perfeito do que jamais ousamos acreditar. Por fim, experimentaremos também que um coração simples e reto, é mais fácil sintonizar com a verdade simples e reta de Deus.

    Depois dessas considerações, poderemos enfrentar as aparentes contradições a que aludimos acima sem nos sentirmos demasiado atemorizados e sem tentarmos encontrar para todos os passos." (3)

    Neste ponto John Nugent pergunta onde se encontra o equilíbrio, tão importante para nossa alma?

    É o que veremos na postagem de amanhã. 


Fonte: Nugent, John D.  Nervos, Preocupação e Depressão. trad. Henrique Elfes. São Paulo: Quadrante, 1992.

Notas do blog:

1. Op. cit. p. 3,4

2. Cada um de nós pode ficar obcecado com várias coisas.  Quais  quais são nossos "problemas"? O que  nos aflige? A covid? A saúde de modo geral? O perigo de perder o emprego? As dificuldades causadas pelos outros? os sonhos que não podemos realizar? A suposição que conseguimos planejar toda a nossa vida?  A crise da Igreja? As preocupações políticas?  Essas e outras são dificuldades que podem ser transformar em obsessões que podem fazer que mergulhemos no pessimismo. Obsessões que tiram nossa paz e até a dos outros.

3. Op.cit. p. 96-98

Obs: o destaque no texto, em itálico, é do blog.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

AS BOAS E AS MÁS COMPANHIAS

 

O texto de S. João Bosco é um belo exemplo de como a moral católica era pregada no seu tempo. Ensinamento claro que também encontrávamos nos conselhos de nossos avós e nos provérbios populares. 

Lembremos que ele trabalhava com jovens. 


São João Bosco




"
Há três espécies de companheiros: os bons, os maus e os que estão no meio termo. Com os bons podemos nos relacionar, que será muito frutuoso, com os medíocres somente quando houver necessidade, mas sem contrair familiaridade. quanto aos maus, devemos evitar sempre. 

Quem são esses terríveis maus companheiros? Todos que não se envergonham de ter conversas obscenas, murmuradores, mentirosos, blasfemadores; os que têm vida escandalosa e aconselham a desobedecer aos pais, a roubar, a transgredir os deveres. Todos esses são péssimos companheiros e ministros de Satanás, dos quais você deve fugir mais do que da peste e do demônio.

Quem andar com o virtuoso, será também virtuoso. Estando com os bons, eu garanto que alcançará o Paraíso. Pelo contrário, permanecendo com os perversos, sua alma corre grande perigo. 

Alguém poderá dizer: São tantos os maus, que seria preciso "sair deste mundo para poder evitá-los. É verdade que são numerosos e, é justamente por isso que o risco é grande. Lembre-se de que sempre terá a companhia de Jesus Cristo, da Bem-Aventurada Virgem Maria e do Santo Anjo da Guarda. Existirão companheiros melhores que esses? 

É possível encontrar bons amigos, juntos poderão frequentar os Sacramentos da Confissão e da Eucaristia. amigos que com palavras e exemplos, estimularão o cumprimento dos deveres sociais e religiosos. 

Desde que Davi, quando jovem, conheceu Jônatas, tornaram-se grandes amigos com proveito recíproco, porque um animava o outro nas práticas das virtudes."


São João Bosco: O Cristão Bem Formado, p. 22. Publicado originalmente por Alair Brandalise.