segunda-feira, 20 de abril de 2026

A FÉ E O ENCONTRO COM CRISTO

Claravalcister (V.O.)



No catecismo da primeira comunhão, aquele ensinado às crianças, encontramos a pergunta: 'Por que existimos?" Aí lemos a resposta simples e direta: "Existimos para conhecer, amar e servir a Deus nesta vida, para sermos felizes com Ele para sempre na vida eterna (no Céu).

Então, nos era explicado:

- Conhecer: Podíamos conhecer a Deus, de modo indireto, pelas criaturas. Pela ordem e beleza de todo o Universo pois são imagens de Deus. Depois, de modo principal, A Revelação.

- Amar. Temos que amar a Deus sobre todas as coisas. E amar nosso próximo como a nós mesmos.

- Servir: Como? Fazendo a vontade de Deus, como aprendemos no Pai Nosso. Fazemos Sua santa vontade quando seguimos com amor os mandamentos. Não sei se as crianças entendiam bem, mas o que está dito é que nossa comunhão com Deus já começa aqui na Terra e se completa, com perfeição no Céu.

Das lembranças de minha infância passo para a meditação do dia de hoje que está no site do Opus Dei. Ela explica como a Revelação, na bela linguagem de santos e teólogos, nos ajuda a entender como viver unidos a Cristo. 

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O Evangelho nos conta que as multidões, depois do milagre da multiplicação dos pães, subiram em barcas e foram procurar Cristo em Cafarnaum. Pelo portentoso milagre que praticara sabiam que Ele era um profeta em especial. "Mas o senhor rapidamente aproveita a oportunidade para purificar gradualmente (o interesse do povo) e convidá-lo a elevar o olhar. Não se tratava de seguir um taumaturgo que lhes desse alimento diário, mas de buscar a vida eterna, de procurar a salvação". Jesus disse: "Em verdade, em verdade eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos" (Jo 6,26). 

Procuravam Cristo realmente por amor? Ou havia algo imperfeito? 

Santo Agostinho, meditando sobre o Evangelho de São João, pergunta se a multidão não “'O procurava por razões carnais e não espirituais". "Quantos há que procuram Jesus guiados apenas por interesses temporais!"

Pergunta que vale para o povo que ali estava e vale para cada um de nós. O que realmente procuramos?

A meditação de hoje continua: 

"AQUELES admiradores de Jesus, por estarem focados apenas em seus interesses pessoais, não perceberam que estavam diante do enviado de Deus. “Não compreenderam que aquele pão, partido para tantos, para muitos, era a expressão do amor do próprio Jesus. Deram mais valor àquele pão do que ao seu doador”[3]. Mas Jesus aproveitou o seu interesse para orientar seus desejos: “Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do homem vos dará. Pois este é quem o Pai marcou com seu selo” (Jo 6,27). Introduziu assim o grande tema de todo o capítulo do Evangelho que a liturgia da Igreja nos propõe durante esta semana: a Eucaristia.

A seguir Cristo prepara o terreno para aprofundar sua pregação. “Perguntaram: Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” (Jo 6,28).

“De acordo com a mentalidade da época, as pessoas que estavam ouvindo Jesus pensavam que deveriam observar práticas religiosas para merecer o alimento milagroso. O Senhor os surpreendeu com a sua resposta: “A obra de Deus é esta: que acrediteis naquele que ele enviou” (Jo 6,29). A obra de Deus é acreditar. A prioridade é da graça, e não das nossas ações. “Hoje, estas palavras são dirigidas também a nós: a obra de Deus não consiste tanto em ‘fazer’ coisas, mas em ‘acreditar’ n’Aquele que Ele enviou. Isto significa que a fé em Jesus nos permite cumprir as obras de Deus. Se nos deixarmos arrebatar por esta relação de amor e de confiança com Jesus, seremos capazes de realizar boas obras que têm o perfume do Evangelho, para o bem e as necessidades dos irmãos”[4].

“A obra de Deus é esta: que acrediteis naquele que ele enviou” (Jo 6,29). A chave da nossa fé está na plena confiança na graça de Deus. “O centro da existência, aquilo que dá sentido e esperança firme ao caminho muitas vezes difícil da vida é a fé em Jesus, o encontro com Cristo (...). A fé é o elemento fundamental. Não se trata aqui de seguir uma ideia, um programa, mas de encontrar Jesus como uma Pessoa viva, de se deixar comprometer totalmente por Ele e pelo seu Evangelho. Jesus convida a não se limitar ao horizonte puramente humano e a abrir-se ao horizonte de Deus, ao horizonte da fé”[5].

nossa fé está na plena confiança na graça de Deus. “O centro da existência, aquilo que dá sentido e esperança firme ao caminho muitas vezes difícil da vida é a fé em Jesus, o encontro com Cristo (...). A fé é o elemento fundamental. Não se trata aqui de seguir uma ideia, um programa, mas de encontrar Jesus como uma Pessoa viva, de se deixar comprometer totalmente por Ele e pelo seu Evangelho. Jesus convida a não se limitar ao horizonte puramente humano e a abrir-se ao horizonte de Deus, ao horizonte da fé”[5].


“A OBRA DE DEUS é esta: que acrediteis naquele que ele enviou” (Jo 6,29). “Mas Jesus recorda-nos que o verdadeiro significado da nossa existência terrena consiste no fim, na eternidade, consiste no encontro com Ele, que é dom e doador, e recorda-nos também que a história humana com os seus sofrimentos e as suas alegrias deve ser considerada num horizonte de eternidade, ou seja, no horizonte do encontro definitivo com Ele. E este encontro ilumina todos os dias da nossa vida”[6].

De fato, a fé nos aproxima do ponto de vista de Deus, da “mente de Cristo” (1 Cor 2,16), para podermos ler e entender tudo a partir daí. Por isso, a fé não é um simples conteúdo teórico para confessar ou pregar. Ela se manifesta, antes de tudo, na vida cotidiana de quem acredita, pois essa luz mostra o sentido da vida, ilumina a existência pessoal e comunitária com a perspectiva de Deus. A fé, ao descobrir a possibilidade de se associar aos desígnios providentes de Deus, torna-se operativa, “opera pela caridade” (Gal 5,6). “Fé com obras, fé com sacrifício, fé com humildade”[7], dizia São Josemaria. A fé me move a ver as coisas com o pensamento de Cristo? Procuro descobrir a relação que a realidade em que vivo tem com os planos de Deus, especialmente a partir da Sagrada Escritura?

Dirijamo-nos a Jesus como o personagem do Evangelho que lhe rogava: “Creio! Vem em socorro à minha falta de fé!” (Mc 9,24). Digamos também a ele: “Senhor, eu creio! Mas ajuda-me, para que creia mais e melhor! E dirigimos igualmente esta súplica a Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, Mestra de fé: Bem-aventurada tu que creste, porque se cumprirão as coisas que te foram ditas da parte do Senhor”[8].


[1] Santo Agostinho, Tratado sobre o evangelho de São João, 25,10.

[2] Francisco, Meditação matutina, 5/05/2014.

[3] Francisco, Ângelus, 2/08/2015.

[4] Francisco, Ângelus, 5/08/2018.

[5] Bento XVI, Ângelus, 5/08/2012.

[6] Francisco, Ângelus, 2/08/2015.

[7] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 203.

[8] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 204.

Imagens de IA


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O QUE FAZER QUANDO PERDEMOS UM ENTE QUERIDO?

2026. Noss primeira postagem do ano.


Há muitos temas para abordarmos. Notícias da Igreja e do Papa. Vidas de santos. Espiritualidade. Crise espiritual do homem moderno. 

Há pouco abri o site do Opus Dei Brasil para ler o Evangelho do Dia. Vi, ao lado, várias chamadas interessantes. Uma delas perguntava: O que fazer quando perdemos um ente querido?

Sem dúvida é uma das grandes cruzes que aparecem em nossas vidas. Pelo menos de alguns de nós, quando perdemos, inesperadamente, um filho, um parente, um amigo. 

S. Josemaría, em uma apresentação pública foi perguntado sobre isso. Como é de seu feitio respondeu com clareza, tranquilidade, fé.

Segue o link com sua resposta.

Um Ano Novo com saúde, paz, harmonia, fé, e muitas graças de Deus.


https://opusdei.org/pt-br/article/oracao-abandono-vontade-de-deus-nao-entendemos-video/



quarta-feira, 28 de maio de 2025

DIREITO À IMIGRAÇÃO. 5. CONCLUSÃO

 

Conclusão – equilibrando as obrigações para com os ganhadores e os possíveis perdedores da migração

Andrew M. Yuengert

Para que os argumentos empíricos não nos distraiam da questão distinta da avaliação moral, irei afirmar a questão que devemos abordar como hipotética: se concordássemos que a imigração impõe custos aos nativos mais pobres que não podem ser compensados de forma adequada através de transferências e requalificação profissional, teríamos justificação para restringir a imigração, apesar de os benefícios materiais para os imigrantes pobres serem maiores que os custos materiais para os nativos pobres? Podemos apenas chegar a esta conclusão se os nossos pobres, se os nossos não-qualificados, tiverem mais peso nas nossas deliberações que os pobres e os não-qualificados de outros países. Será alguma vez defensável valorizar mais os interesses dos nossos concidadãos pobres do que os interesses dos pobres de outros sítios? Quais são as reivindicações de solidariedade e justiça que os nossos concidadãos têm sobre nós e sobre o nosso governo em comparação com as reivindicações de justiça e solidariedade dos estrangeiros? É esta a questão que fica por responder, tanto na Doutrina Social da Igreja como nos debates sobre a imigração.

O bem comum de um país não é simplesmente o seu rendimento agregado. Se assim fosse, a eficiência económica ditaria fronteiras abertas com transferências de pagamentos apropriadas aos que perdem com a imigração. O bem comum de um país inclui o desenvolvimento de todos os seus membros, principalmente dos mais pobres. Se alguns enfrentam dificuldades, então o bem comum do todo não é alcançado. São Tomás de Aquino (1948, II-II, 26) define uma ordem na caridade humana – primeiro Deus, seguido do próprio, da família e do vizinho. A questão crucial para os cidadãos dos países em desenvolvimento é saber se um vizinho que é um concidadão (ou mesmo um não-cidadão residente) está mais perto na ordem da caridade do que um vizinho que vive noutro país. Se um país tem um bem comum separado de algum bem comum universal, então os concidadãos e os residentes devem contar mais. Não sei quanto mais, mas mais.

Há uma hostilidade generalizada em relação a argumentos que apoiam a preferência por políticas a favor dos concidadãos: estas preferências são frequentemente caraterizadas como perigosamente nacionalistas, chauvinistas e fanáticas. A esquerda cosmopolita condena as afirmações de que existem trade-offs entre os pobres de diferentes nações porque considera serem distrações das alterações estruturais que são precisas para elevar todos os pobres. Os apoiantes do mercado livre, frequentemente caraterizados como estando à “direita” no espetro político, rejeitam os apelos para proteger os “nossos” pobres porque os consideram meras cortinas de fumo para mascarar uma luta cínica a favor de restrições ineficientes ao comércio. Ambos os lados afirmam que o trade-off proposto entre os imigrantes e os nativos pobres é ilusório e não precisa de ser encarado diretamente.

A Doutrina Social da Igreja oferece alguma ajuda na reflexão sobre este conflito, mas o tom dos ensinamentos é extremamente suspeitoso em relação aos bens comuns nacionais[18]. O Compêndio (170) reconhece o peso moral do bem comum de uma nação, mas adverte que este não deve ser fechado ao bem comum mais amplo entre nações e povos. Na Fratelli Tutti, o Papa Francisco explora o conflito com algum detalhe e afirma que o bem comum equilibra o amor pela própria terra natal com uma abertura generosa para com aqueles que se encontram fora das fronteiras dessa terra (FT, 142-142). No entanto, tal como os seus antecessores, rapidamente adverte contra uma “mentalidade xenófoba” (39), contra “medos ancestrais” (27), contra um “instinto para a autodefesa” (41) e contra o “narcisismo local” (146).

São quatro as razões para a ambivalência da Igreja Católica relativamente aos bens comuns nacionais. Em primeiro lugar, o estado-nação nasceu em conflito com a Igreja e é fortalecido por filosofias políticas segundo as quais um agregado de interesses individuais ou uma vontade geral irão suplantar a ideia de um bem comum. Em segundo lugar, existem amplos motivos para suspeitar do estado-nação. O nacionalismo combinado com a ideologia tem gerado guerras, discriminação e sofrimento incalculável. A tradição católica de direitos humanos desenvolveu-se para defender a dignidade humana do estado. Além disso, a Igreja Católica é universal: não está limitada a nenhum estado e tem um bem comum que engloba toda a humanidade e criação. Por esse motivo, os imigrantes que se encontram entre fronteiras nacionais estão no topo das preocupações da Igreja (EG, 210).

Uma outra razão pela qual a Doutrina Social da Igreja é de alguma forma silenciosa relativamente ao trade-off entre o bem-estar dos migrantes pobres e o bem-estar dos nativos não-qualificados é uma suposição implícita de que não seria preciso haver contrapartidas se as nações anfitriãs estivessem plenamente empenhadas no seu próprio bem comum e no bem comum universal. A Doutrina Social da Igreja é otimista e assume que as pessoas de boa-vontade, com corações e mente convertidos, podem abordar de forma adequada a maior parte dos problemas sociais. Se os países desenvolvidos fossem governados de acordo com os princípios da Doutrina Social da Igreja seriam capazes tanto de acolher grandes números de imigrantes pobres como, ao mesmo tempo, lidar com os custos desiguais da imigração de uma forma justa.

Contudo, os seres humanos devido à sua finitude e tendência para o pecado ficam muitas vezes aquém das expetativas e são incapazes de satisfazer plenamente as exigências da justiça e da caridade. E se as pessoas de boa-vontade apenas conseguirem enfrentar as desigualdades nos países desenvolvidos de forma imperfeita? Ou, e se os países desenvolvidos não conseguirem enfrentar essas desigualdades por negligência ou indiferença? Em qualquer caso, a imigração pode colocar os interesses dos migrantes pobres contra os dos nativos mais pobres. A Doutrina Social da Igreja oferece pouca orientação para estes cenários que não são os ideais.

Os benefícios dos migrantes pobres em mudarem-se para o mundo desenvolvido são enormes e não são apenas materiais. Perante esta situação, é difícil resistir à conclusão de que os países desenvolvidos deveriam acolher a imigração em massa, ainda que isso imponha custos aos nativos mais pobres. Este é um argumento poderoso, mas talvez os nativos mais pobres mereçam mais consideração por parte dos seus concidadãos. Precisamos de ouvir mais da Doutrina Social da Igreja sobre as exigências dos bens comuns nacionais – e sobre vínculos razoáveis aos nossos concidadãos – para que possamos lidar com os desafios que resultam de escolher as soluções que não são as ideais no que diz respeito à imigração num mundo imperfeito.

A suspeita da Igreja sobre o nacionalismo pouco saudável é justificada, mas uma rejeição instintiva de todas as alegações sobre a importância da nação e do patriotismo pode ser perigosa e desestabilizadora: as comunidades são construídas a partir da base, começando pela família. A Igreja deveria desafiar, encorajar e comprometer-se com qualquer pessoa que apresente argumentos razoáveis e humanos a favor da autonomia do estado-nação, bem como de obrigações particulares relativamente aos seus concidadãos (Hazony 2018; Cass 2018; Reno 2019). Tais pessoas roubam terreno intelectual aos populistas autocráticos que recorrem ao nacionalismo e aos laços de cidadania para atingir propósitos iliberais e desumanos. Se os apelos dos autocratas não forem equilibrados pela reflexão sobre um respeito mais saudável pela nação, os autocratas podem continuar a ganhar força. A Doutrina Social da Igreja deveria ter peso neste debate.

Sobre o autor

Andrew M. Yuengert é Professor de Economia no Seaver College na Universidade Pepperdine. Doutorou-se em Economia na Universidade de Yale e é professor visitante William E. Simon em Religião e Vida Pública na Universidade de Princeton, professor auxiliar de Economia no Bates College e economista investigador na Reserva Federal do Banco de Nova Iorque. Andrew foi presidente da Associação de Economistas Cristãos. Contribuiu para inúmeros livros e revistas científicas, sendo autor dos livros: “The Boundaries of Technique: Ordering Positive and Normative Concerns in Economic Research” e “Inhabiting the Land: The Case for the Right to Migrate”.

Referências e outras leituras para esta seção - Fonte

As referências a artigos e aos documentos pontifícios dos artigos desta série sobre migração são muito extensos.. Para quem tem interesse em consultá-los colocamos aqui o link da série. 

https://catholicsocialthought.org.uk/course_unit/o-direito-a-migrar-e-o-bem-comum/?lang=pt-pt


quinta-feira, 20 de março de 2025

DSI. O DIREITO A MIGRAR E O BEM COMUM - 4

 

Imigrantes pobres e os “nossos” pobres

Embora o direito a migrar não seja absoluto, a Doutrina Social da Igreja adverte as nações contra as restrições arbitrárias a este direito: os migrantes internacionais são geralmente pobres e mesmo aqueles que são mais ricos procuram frequentemente melhores condições e direitos que lhes são negados nos seus países de origem. O Papa Francisco nota que Jesus chama a Igreja a reconhecê-lo “nos mais pobres e mais abandonados; entre estes haverá certamente migrantes e refugiados que estão a tentar escapar a condições difíceis e a perigos de todo o tipo” (WDMR, 2015). A nossa atitude para com os migrantes pobres e os refugiados “não é apenas sobre migrantes (…) o progresso dos nossos povos (…) depende acima de tudo da nossa abertura para sermos tocados e movidos por aqueles que nos batem à porta” (WDM, 2019).

Ainda que as nações ocidentais olhem com crescente preferência para os imigrantes mais bem-educados e altamente qualificados, a Doutrina Social da Igreja incita-nos a manter os nossos olhos fixos nos pobres. Estudos confirmam que os benefícios econômicos para os migrantes pobres são inegavelmente grandes, com aumentos substanciais nos seus rendimentos apenas por atravessarem a fronteira. O fato de este benefício reverter para os imigrantes com efeitos relativamente pequenos no curto-prazo sobre os trabalhadores nativos (e efeitos ainda menores no longo-prazo) é um puzzle – um puzzle que talvez apenas os economistas consigam apreciar na sua totalidade. Explorando-o, podemos ver mais claramente o retorno humano da imigração: os grandes benefícios econômicos para os imigrantes pobres são um indicador e coincidem com os grandes benefícios não-económicos da imigração.

O Prêmio do Local

Sem surpresas, mais de um milhão de imigrantes entram nos EUA todos os anos e muitos mais gostariam também de entrar (Clemens 2011, p.83). Nós tomamos isto por garantido, mas talvez devêssemos refletir sobre este facto relevante. Numa economia global e dinâmica, na qual o capital, bens e serviços são todos suscetíveis de ser mobilizados através das fronteiras, as diferenças nos rendimentos do trabalho não deveriam ser tão persistentemente acentuadas. Os trabalhadores nos países pobres não deveriam ter de deixar a sua terra natal para aumentar significativamente os seus rendimentos. Os mercados podem chegar até eles: o investimento capital e a tecnologia são extremamente móveis e sensíveis às oportunidades; e o comércio livre de bens e serviços permite aos pobres maior acesso aos mercados mundiais do que em qualquer outro momento da história mundial. Isto levanta uma questão crucial: por que é que a oportunidade não chega até eles?

Consideremos as seguintes estatísticas de Kennan (2013)[14]:


·
Um trabalhador filipino, educado nas Filipinas e a trabalhar nos EUA, ganha quatro vezes mais do que um filipino com a mesma educação que permaneça nas Filipinas.

     · Um trabalhador mexicano, educado no México e a trabalhar nos EUA, ganha duas vezes e meia mais do que um mexicano com a mesma educação que permaneça no México.

Encontramos estas diferenças por todos os países que enviam imigrantes para a Europa e para os EUA: a mesma pessoa, com a mesma educação no país de origem, pode ganhar muito mais num país desenvolvido do que em casa.

As caraterísticas dos imigrantes relativamente àqueles que ficam em casa não conseguem explicar diferenças desta dimensão (Clemens 2011). A educação não explica esta diferença uma vez que tanto os emigrantes como aqueles que ficam são educados no país de origem, nem as barreiras ao comércio são suficientemente severas para a explicar. Talvez as diferenças na remuneração reflitam algo mais do que diferenças na produtividade. Talvez os trabalhadores mexicanos sejam igualmente produtivos no México e nos EUA, mas recebam simplesmente muito menos no México. Contudo, isto não é plausível porque o investimento capital e o comércio (ao contrário do trabalho) move-se com relativa facilidade entre fronteiras. Se os trabalhadores no México fossem tão produtivos como os trabalhadores mexicanos nos EUA mas recebessem muito menos, então a procura por trabalhadores mexicanos para trabalhar no México seria grande e com tendência para aumentar; os investimentos no México seriam mais rentáveis; e estes lucros mais elevados seriam tão persistentes como as diferenças salariais. Mas este não parece ser o caso. Os retornos ao capital são praticamente iguais entre os países (Caselli and Feyrer, 2007) e não há uma escassez constante de trabalhadores no mundo em desenvolvimento.

Há alguma coisa no país de origem que faz com que o mesmo trabalhador seja menos produtivo em casa do que no estrangeiro. O mesmo trabalhador filipino é quatro vezes mais produtivo nos EUA do que no país de origem. O mesmo trabalhador mexicano é duas vezes e meia mais produtivo nos EUA do que no México. Há alguma coisa nos países de origem que faz com que os trabalhadores sejam menos produtivos lá, mas que não reduz da mesma forma a produtividade marginal do investimento de capital nesses países. A explicação técnica para esta disparidade encontra-se no conceito de “produtividade acrescentada do trabalho” no mundo desenvolvido (Kennan 2013, p. L2). Clemens et al. (2008) chama a isto o “Prémio do Local” (Place Premium), embora do ponto de vista do país de origem sejam mais uma “Penalização do Local” sobre o trabalho.

O que explica esta “penalização”? Os culpados mais óbvios são as políticas económicas e as instituições dos países de origem que suprimem a produtividade do trabalho (Olson 1996; Clemens 2011). Nos países em desenvolvimento é difícil começar novas empresas e protegê-las da apropriação pelos poderosos e pelos que têm ligações políticas. A justiça e o estado de direito são aplicados de forma desigual. Em poucas palavras, os trabalhadores e os empreendedores não conseguem tirar o máximo partido das oportunidades que se apresentam. Os seus países de origem dão-lhes poucas oportunidades para exercerem a sua iniciativa económica e empregarem as suas competências[15].

Se um trabalhador se torna mais produtivo simplesmente porque se muda para os EUA ou Europa, então os benefícios económicos potenciais para a imigração são enormes – muito maiores que os benefícios do comércio livre, ou de mais educação ou do livre movimento de capitais (Clemens 2011)[16]. São trilhões de dólares de benefícios para os trabalhadores pobres que estão em causa.

O “prêmio do local” coloca o trabalho humano e o empreendimento humano no centro da política de imigração. Um trabalhador que imigra para os EUA recebe bem mais do que um aumento no rendimento: não é por acaso que recebe mais dinheiro. Salários mais elevados refletem uma maior produtividade, logo o trabalhador produz mais e contribui mais. No país de origem, o trabalhador não é roubado do seu salário, mas sim pago de acordo com a baixa produtividade. A produtividade pode ser tão baixa que os trabalhadores no seu país de origem podem estar a trabalhar em condições desumanas. Os trabalhadores são privados da sua produtividade e têm de emigrar para se aperceberem disso.

Para usar a linguagem da Doutrina Social da Igreja, ao migrar para países desenvolvidos os migrantes pobres não “têm” apenas mais rendimento: este “ter” reflete a sua capacidade para “ser” mais – mais produtivo, mais criativo, mais responsável por si próprio tanto dentro como fora da força de trabalho. Os seus salários baixos nos países de origem refletem uma falta de “ser” tanto como uma falta de “ter”. Na Laborem exercens, o Papa João Paulo II afirmou que “o trabalho humano (…) é a chave essencial para a questão social” (LE, 3). Através do trabalho, o homem realiza-se enquanto pessoa, desenvolve-se e contribui para a sua comunidade. O grande benefício do trabalho para a pessoa humana e para a comunidade humana reforça o “direito à iniciativa económica”, o terceiro argumento para o direito a migrar discutido anteriormente. A negação deste direito conduz muitos a “optar pela não participação na vida nacional” e a emigrar (LE, 15), o que gera uma pobreza que não é puramente económica:

E os «pobres» aparecem sob variados aspectos; (…) aparecem, em muitos casos, como um resultado da violação da dignidade do trabalho humano: e isso, quer porque as possibilidades do trabalho humano são limitadas — e há a chaga do desemprego — quer porque são depreciados o valor do mesmo trabalho e os direitos que dele derivam (…). (LE, 9) 

O “prêmio do local”, e a supressão da iniciativa econômica que ele reflete, coloca o retorno humano da imigração numa perspetiva muito clara. Muitos pensam nos benefícios da imigração para os imigrantes como uma espécie de redistribuição do rendimento mundial – com os países ricos a darem alguma da sua riqueza aos imigrantes. Mas a economia da imigração sugere que isto não é verdade. Em vez disso, o que está a acontecer é muito mais significativo do ponto de vista moral. O movimento dos imigrantes de países onde a sua iniciativa económica é suprimida para países onde podem ser mais produtivos é uma expansão de oportunidades, não uma redistribuição de rendimentos. O Papa Francisco exorta os países desenvolvidos a acolherem os migrantes e a garantirem que estes “têm o poder de realizar o seu potencial como seres humanos, em todas as dimensões que constituem a humanidade desejada pelo Criador” (WDMR, 2018). O enorme aumento nos rendimentos está intimamente ligado ao “empoderamento” dos trabalhadores imigrantes.


Observação: os destaques em itálico foram inseridos pelo claravalcister. 


Notas da parte 4


[14] Tabela 1, quarta e quinta colunas. Kennan retira as suas estimativas de Clemens et al. (2008).

[15] Existem evidências económicas abundantes neste ponto. Contudo, talvez mais convincente que os livros e os artigos de revistas académicas que têm sido escritos sobre o tema é esta Ted talk que narra a experiência pessoal de Magatte Wade e daqueles que ela tenta empregar no Senegal: https://www.ted.com/talks/magatte_wade_why_it_s_too_hard_to_start_a_business_in_africa_and_how_to_change_it

[16] Clemens (2011) estima que “a emigração de menos de 5% da população das regiões pobres traria ganhos globais superiores aos ganhos resultantes da eliminação total de todas as barreiras ao comércio de mercadorias e de todas as barreiras aos fluxos de capital” (p. 84). Ver Keennan (2013, 2017) para efeitos estimados igualmente grandes.