Introdução do blog claravalcister
Como vimos na parte 1 desta série de artigos a respeito da questão da migração são três os princípios que definem a doutrina social católica sobre o assunto.
Nos dois primeiros artigos aqui publicados tivemos a explicação do direito a migrar e a imigrar.
Hoje começamos a postar o segundo princípio. O direito a imigrar não é absoluto. Os países anfitriões podem regular os fluxos de migrantes. Ponto importante da DSI muito pouco conhecido. Deixar de entender sua importância faz com que a balança penda indevidamente para o terceiro ponto da doutrina que afirma que os direitos dos migrantes não podem ser restritos de forma leviana ou abusiva.
Mas, isso fica para oúltimo artigo. Hoje vamos ver como a DSI explica os deveres e os direitos de Estados soberanos sobre este grande problema.
Explicação que é dada baseada não só em princípios mas também levando em conta fatores políticos, econômicos, sociais, culturais, históricos, o que a torna um tanto árida. Paciência. Ela é indispensável para que possamos entender toda a complexidade deste e de outros problemas contemporâneos. Só assim seremos capazes de demonstrar a solidez da Doutrina Social da Igreja. Ela não é só um conjunto de ensinamentos teóricos, deduzidos de premissas verdadeiras. Ela tem que ser adequadamente aplicada à realidade. .
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O bem comum
do país anfitrião – investigação econômica
O bem comum de uma nação é
prosseguido a nível nacional; os cidadãos contribuem para ele em todos os níveis
e supõe-se que participem nos seus benefícios. As principais formas através
das quais a imigração pode prejudicar o bem comum incluem os seus efeitos na
cultura ou nos encargos económicos desiguais que impõe sobre alguns grupos da
população nativa. Estudos recentes abordam cada um destes aspetos da imigração.
Efeitos
culturais
Existe atualmente um aceso
debate no EUA sobre que tipo de nação quer o país ser. Cada aspecto da história
dos Estados Unidos, as suas instituições e sua cultura estão em cima da mesa e
sob ataque. Todas as questões políticas são arrastadas para este debate e os
imigrantes acabam por se ver recrutados para um dos lados. Até o atual impasse
sobre a imigração ilegal é verdadeiramente um conflito entre nativos sobre o
estado de direito e as políticas de migração. Não é uma discussão entre
imigrantes e nativos[9].
Perante as profundas
discordâncias sobre aquilo que deve ser a cultura cívica americana, é injusto
para os imigrantes esperar que atinjam um alvo cultural contestado. É mais
razoável avaliar a sua assimilação à cultura dos EUA por meio de critérios
menos disputados. São criminosos? Aprendem inglês? Trabalham arduamente? Em
todos estes critérios os imigrantes são bons vizinhos que eventualmente
encontram o seu lugar na sociedade dos EUA. Butcher e Piehl (2007) demonstram
que a taxa de institucionalização (encarceramento) dos imigrantes corresponde a
um décimo da dos nativos da mesma idade e com a mesma educação. As ondas mais
recentes de imigração aprendem inglês mais lentamente que as anteriores, mas o
seu progresso continua a ser constante e os seus filhos falam inglês (Blau e
Mackie, 2017, pp. 114-119). Por fim, tanto os rendimentos dos imigrantes como o
emprego aumentam relativamente aos dos trabalhadores nativos, por quanto mais
tempo eles viverem nos EUA (Blau e Mackie 2017, pp. 98-114).
Efeitos
fiscais
O efeito da imigração nas
finanças públicas é modesto no seu agregado, mas distribuído de forma desigual
entre o nível federal e os níveis estadual e local. Blau e Mackie (2017)
estimam os efeitos passados da imigração e preveem os efeitos futuros aos níveis
federal, estadual e local. Sem surpresas, os impactos previstos dependem dos
pressupostos[10].
Contudo obtém-se uma imagem clara. Ao nível federal, os imigrantes constituem
um benefício orçamental líquido, especialmente quando se consideram as
contribuições dos imigrantes de segunda e terceira gerações (Blau e Mackie,
2017, pp. 436-438). Ao nível estadual e local, os imigrantes são um encargo
líquido, apesar de os efeitos variarem substancialmente entre estados e
gerações de imigrantes (Blau e Mackie, 2017, pp. 522-531).
Os efeitos fiscais estimados são
agravados pelo fato de, sob a atual trajetória insustentável da dívida em
todos os níveis de governo, até um nativo mediano pode ser um encargo orçamental
líquido porque recebe mais em benefícios e serviços do que contribui em
impostos. Qualquer pessoa adicional é simplesmente um acréscimo ao problema.
Contudo, em qualquer cenário onde os EUA regressem à sustentabilidade
orçamental, os imigrantes e os seus descendentes tornar-se-ão menos onerosos do
ponto de vista fiscal do que os nativos[11].
Efeitos nos
trabalhadores nativos
Os economistas sublinham os
efeitos positivos líquidos da imigração: a eficiência da vantagem comparativa e
das trocas mutuamente benéficas. Os maiores vencedores da imigração são os
próprios imigrantes, que aumentam o seu rendimento de forma considerável. Entre
os nativos, todavia, existem ganhadores e perdedores e os efeitos agregados não
capturam de forma adequada o bem comum do país anfitrião. O bem comum inclui o
bem “de todos e de cada um”. Embora, na teoria, os vencedores devam ser capazes
de compensar os perdedores (através da assistência no ajustamento, da
requalificação ou de apoios ao rendimento), na prática as transferências podem
não compensar as perdas.
Com o crescimento da percentagem
de imigrantes qualificados (embora seja ainda pequena), mais estudos se têm
centrado nos efeitos da imigração altamente qualificada nos mercados de
trabalho e Blau e Mackie (2017, pp. 251-253) examinam estes resultados. Embora
os resultados empíricos sejam mistos, há algumas evidências de que um influxo
de imigrantes altamente qualificados aumenta os rendimentos em todos os níveis
de educação dos nativos, talvez devido a efeitos de spillover e
inovação[12].
Os imigrantes altamente qualificados parecem aumentar a taxa de produção de
novas patentes e os imigrantes no geral apresentam taxas de trabalho
independente mais elevadas que os nativos. E maiores taxas de trabalho
independente e inovação tecnológica podem aumentar a produtividade económica,
embora esta investigação esteja ainda numa fase inicial (Peri et al, 2015;
Borjas, 2019; Burchardi et al, 2020).
O estudo das Academias Nacionais
de 1997 (Smith e Edmonston, 1997) analisou a literatura sobre os efeitos da
imigração nos mercados de trabalho pouco qualificados e encontrou efeitos
negativos, mas relativamente pequenos. O estudo das Academias Nacionais de 2017
(Blau e Mackie, 2017, p. 267) sintetiza a explosão dominante da investigação
empírica criativa sobre este tópico. Os novos estudos não alteraram a conclusão
do estudo de 1997: a imigração tem, se tanto, efeitos negativos modestos nos
salários dos trabalhadores não-qualificados: um crescimento 2 a 3% mais lento
durante um período de dez anos.
Blau and Mackie (2017, cap. 5)
discutem o desafio empírico de avaliar o efeito da imigração num mercado de
trabalho dinâmico. Os imigrantes tendem a estabelecer-se em áreas onde as suas
oportunidades económicas são maiores; isto (e o movimento dos trabalhadores
nativos em resposta às alterações no mercado de trabalho) confunde a nossa
capacidade de isolar o efeito de um influxo de imigrantes. Mais, é difícil
identificar que nativos competem com quais imigrantes. No curto-prazo, os
imigrantes irão aumentar a oferta de mão-de-obra (e diminuir os salários) nos
mercados onde são substitutos dos trabalhadores nativos (não-qualificados e
adolescentes, na maioria dos casos) e irão aumentar a procura de mão-de-obra (e
os salários) em mercados onde são complementares.
Qualquer que seja o efeito da
imigração no curto-prazo, no longo-prazo o investimento de capital responde de
forma a mitigar esses efeitos. Os investidores fornecerão mais capital e novas
tecnologias para tirar partido do influxo; este novo investimento aumenta a
procura por mão-de-obra não-qualificada, o que contraria a queda nos salários.
Quando os imigrantes trazem o capital consigo, ou quando os investidores
aumentam o capital antecipando um grande influxo de imigrantes, os efeitos
negativos da imigração nos salários serão menores mesmo no curto-prazo.
Resumindo, no curto-prazo
(durante um período de aproximadamente dez anos) um influxo de imigrantes
não-qualificados terá provavelmente efeitos negativos modestos nos
trabalhadores nativos, pouco qualificados e de baixos rendimentos. Esta redução
nos salários beneficia os nativos que possuem capital. No longo-prazo, à medida
que os níveis de capital aumentam para satisfazer a nova oferta de mão-de-obra,
os efeitos negativos são menores: e mesmo os efeitos relativamente pequenos
diminuem. Os beneficiários de longo-prazo são os próprios imigrantes e os
detentores de capital[13].
[8] Discurso de Gettysburg.
[9] Isto não significa que a imigração não tenha
efeitos políticos. Giuliano e Tabellini (2020) apresentam evidências de que as
grandes ondas de imigração do passado acabaram por deslocar os EUA para a
esquerda no espetro político.
[10] Blau e Mackie (2017, pp. 461-462) enfatizam
pressupostos cruciais sobre as perspetivas orçamentais de longo-prazo, a
alocação de custos não recuperáveis ao “custo” de um imigrante e as
caraterísticas socioeconómicas de novos imigrantes.
[11] Há um outro lado ainda mais complexo deste
argumento que é importante. Os migrantes podem reduzir o encargo orçamental
atual da população nativa porque a dívida é partilhada entre mais pessoas. A
imigração abranda também o envelhecimento da população e os encargos fiscais
que resultam desse processo.
[12] Alguns estudos encontram também efeitos
negativos nos salários dos nativos altamente qualificados que competem mais
diretamente com os imigrantes altamente qualificados, ver Borjas (2006).
[13] Os efeitos negativos nos salários podem
também ser reduzidos (ou mesmo revertidos) pelo influxo de novas e
complementares ideias empreendedoras que aumentam a procura de mão-de-obra, que
reduzem o custo dos bens e serviços ou que aumentam a qualidade ou a variedade
dos bens e serviços.
Nota sobre siglas usadas no artigo
Neste capítulo, as encíclicas papais, as
exortações apostólicas e documentos similares serão referenciadas com o título
completo na primeira referência e depois citadas apenas pelas suas iniciais. As
mensagens do Dia Mundial do Migrante (World Day for Migrants) ou do Dia
Mundial do Migrante e do Refugiado (World Day for Migrants and Refugees)
serão descritas pelas iniciais WDM e WDMR seguidas pela data.
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