sábado, 29 de agosto de 2009


LAICISMO, CULTURA E COMBATE A SÍMBOLOS RELIGIOSOS



Valter de Oliveira



Tem aumentado no Brasil, e no mundo, ações de minorias que combatem o uso de símbolos religiosos em órgãos ou espaços do Estado. Nada de crucifixos, por exemplo, em tribunais, escolas, hospitais ou quaisquer outras repartições públicas. Razões? Basicamente duas:


1. O Estado é laico.

2. Não se pode aceitar um privilégio católico. Seria uma ofensa a pessoas de outra fé.

Assim, dizem alguns, juridicamente a presença dos símbolos religiosos estaria ferindo a Constituição do Brasil.

Por adotar tal modo de pensar a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, no dia 31 de julho passado, propôs uma ação civil pública para obrigar a União a retirar os símbolos religiosos dos órgãos federais no Estado de São Paulo.

Aqui quero enfatizar um ponto abordado por intelectuais católicos e líderes religiosos que escreveram artigos em defesa de símbolos religiosos: o divórcio existente entre as idéias e as pretensões dos laicistas e a cultura de um país. No caso, com a cultura brasileira. Com efeito, quando leio seus textos ou artigos mais me convenço do absurdo que propõem; mais percebo que vivem desvinculados da sociedade, da cultura do povo. São “elitistas” que se arvoram em defensores de um modelo de estado impregnado de ateísmo e, a partir daí, querem impor uma ditadura legalista sobre toda a sociedade. Vamos aos fatos
.

É verdade que o Estado brasileiro é laico, como acontece com a maior parte dos Estados no mundo contemporâneo. Agora, meu caro leitor, pergunte a seus amigos e vizinhos o que é laicismo. E peça a eles para explicar a diferença entre laicismo e laicidade. Errarei se afirmar que a maioria não saberá responder?

Garanto-lhe que mais de 90% de brasileiros tampouco sabem. Não é tema de conversa de povo. É papo de intelectual. Papo de minoria.(1) Só que, no caso, temos uma minoria que quer nos fazer acreditar que seu modo de pensar é o desejado pelo povo. Ou que julga que interpreta corretamente o que é bom para a sociedade.

Observem um dos pontos alegados para se acabar com símbolos religiosos em locais públicos: seriam ofensivos para pessoas de outras religiões. Como sabem? Fizeram algum plebiscito?

O que vemos em nossa sociedade, o que sentimos em nosso povo, é um verdadeiro pluralismo e respeito por várias formas de expressão religiosa. Está ligado ao modo como recebemos todos os povos, como vemos as outras culturas e, portanto, até religiões. Somos o país do sincretismo. Não é verdade que umbandistas vão lavar as escadarias do Senhor do Bonfim em nossa querida Bahia? Que muitas pessoas que se dizem espíritas, casam na Igreja e batizam seus filhos? Não temos judeus e muçulmanos participando de reuniões em igrejas católicas? Sentem-se ofendidos diante das imagens religiosas?

Um Estado, seja ele religioso ou laico, não pode estar desvinculado da cultura de seu povo. A não ser que esta violasse princípios fundamentais da lei natural. Como o direito à vida, por exemplo.(2)

Alguém em sã consciência acredita que o Estado de um país muçulmano não deve levar em conta a fé de seu povo? Ou que seria boa política o Estado de Israel abolir o descanso aos sábados por respeito a cristãos ou a ateus?

O que vemos no mundo é não só os Estados respeitarem suas culturas, mas ainda aceitar que organismos internacionais também os levem em conta. É o caso da Cruz Vermelha Internacional.

A Cruz Vermelha é uma instituição que nasceu no Ocidente. E escolheu a cruz como seu símbolo. E é respeitada por todos os Estados laicos.(3)

E não me consta que alguém haja reclamado porque os países muçulmanos criaram o Crescente Vermelho.

Ambas as instituições estão preocupadas com a vida de seres humanos. Sem qualquer forma de discriminação. Todos reconhecem seus insignes serviços.

Agiriam corretamente os pacientes atendidos por essas instituições se protestassem contra elas pelo uso de símbolos religiosos?

Seria ótimo se certos “intelectuais” tivessem um pouco mais de contato com o povo. Teriam mais bom senso.

Por não tê-lo, por estarem dissociados de seus povos é que governos laicistas – e semelhantes – resolveram exterminar quem se opôs a eles. Como o fizeram os jacobinos durante o Terror nos tempos de Robespierre.

Mas, esse é um tema para outro artigo...


Camisa do Barcelona tem Cruz estampada no símbolo










Jogadores do Inter de Milão


Fica a pergunta: A quem incomoda?


NOTAS

1. O que não significa, obviamente, que não tenha importância.

2. Os ingleses, ao dominar a Índia, proibiram que viúvas fossem cremadas vivas por ocasião do funeral de seus maridos.

3. A Cruz Vermelha foi idealizada pelo suíço Henry Dunant e fundada em 1863.


segunda-feira, 27 de julho de 2009



DEUS TRABALHA EM SUA EMPRESA?

Floriano Serra





Que padrão de relacionamento, que critérios de decisão e de promoção, que nível de motivação, que qualidade de vida pode-seesperar de uma cultura organizacional na qual não se cultiva a bondade, a solidariedade, a fraternidade, o respeito e o amor ao próximo, sentimentos básicos da espiritualidade?

Em muitas empresas, existem indivíduos que não acreditam em Deus ou porque são ateus ou porque trabalham tanto pra ficarem ricos que não têm tempo de pensar nessas coisas... E eles mal imaginam que devem a esse Deus ignorado o privilégio do livre arbítrio – ou seja, o direito que lhes dá até a opção de descrer d’Ele.

Começo a achar que esses indivíduos tendem a se tornar exceção em muito pouco tempo. A cada dia que passa, ouço e leio entrevistas de grandes empresários de sucesso, famosos cientistas, artistas, governantes, líderes políticos, esportistas vencedores e trabalhadores simples atestando a crença n’Ele.

Para ficarmos apenas no campo corporativo, percebo que, atualmente, muitas organizações começam seu dia de trabalho reunindo seus empregados para, juntos, fazerem alguma forma de oração, pedindo sabedoria e justiça nas decisões e harmonia nas relações.

Por essas considerações, fico feliz quando tomo conhecimento de depoimentos importantes, como o do biólogo americano Francis Collins, um dos cientistas mais notáveis da atualidade. Diretor do Projeto Genoma, Collins foi um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano, em 2001 e não esconde de ninguém que, apesar do seu comprometimento com a ciência, não abre mão da fé religiosa, razão pela qual é muito criticado no meio cientifico.

Para reagir à ironia dos seus colegas cientistas, Collins lançou recentemente nos Estados Unidos o livro “The Language of God” (A Linguagem de Deus), no qual, em 300 páginas, narra como aos 27 anos deixou de ser ateu e como, ao converter-se ao cristianismo, passou a enfrentar sérias dificuldades no seio da comunidade acadêmica.

No seu livro e nas entrevistas, Collins defende aquilo que cada vez mais se torna óbvio: ciência e religião não são incompatíveis, mas sim complementares. Segundo ele, a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais porque estes transcendem a ela. Ele lança um questionamento: “Passo à beira de um rio, vejo uma pessoa se afogando e decido ajudá-la, mesmo pondo em risco minha própria vida. De onde vem esse impulso, nunca explicado pela teoria da evolução?”.

Lembro que em S.Paulo, há poucas semanas, um rapaz se jogou no rio Tietê para salvar uma criança que ele nem conhecia. Também recentemente, em Nova York, outro homem se jogou nos trilhos do metrô para salvar um outro, que também não conhecia. De onde vem esse impulso de incrível compaixão e solidariedade senão da parte divina do ser humano, originada na crença num Deus de bondade?

Em algumas empresas, em nome de paradigmas e valores no meu entender equivocados e até ultrapassados, cria-se uma barreira às condutas e manifestações espirituais, transformando o ambiente de trabalho numa atividade exclusivamente física, como se os profissionais fossem constituídos apenas de matéria física. Nessas empresas, é tabu falar-se em Deus.

Posso estar enganado, mas essa postura insensível certamente se reflete no modelo de gestão ali adotado pelos dirigentes e certamente recomendado aos líderes. Uma pena... Que padrão de relacionamento, que critérios de decisão e de promoção, que nível de motivação, que qualidade de vida pode-se esperar de uma cultura organizacional na qual não se cultiva a bondade, a solidariedade, a fraternidade, o respeito e o amor ao próximo, sentimentos básicos da espiritualidade?

Jamais podemos esquecer que, em qualquer empresa, o mesmo poder que pode demitir é o mesmo que pode promover. O mesmo poder que pode realizar sonhos é o mesmo que pode provocar pesadelos. O mesmo que pode criar alegria e união na equipe é o mesmo que pode gerar medo, tristeza e inimizades.

Certamente, a escolha de como usar o poder que lhe é concedido, é do Líder, conforme a Visão, a Missão e os Valores da empresa a que serve. Basta usar o mesmo livre arbítrio já citado. Mas, atenção: a inspiração para essa escolha, se não estiver embasada e iluminada pela crença em Deus, certamente correrá o risco de apontar para o caminho da tirania, do egoísmo e da insensibilidade.

Por essas e outras, até mesmo pela sobrevivência da organização, convém que Deus trabalhe na sua empresa – como, graças a Deus (desculpem o trocadilho...), trabalha na minha.

Com certeza Ele nunca será visto nem tocado pelos “colegas”. Não importa. Importante é que os “colegas” sejam tocados por Ele, em cada passo das suas atividades diárias.


Floriano Serra é psicólogo clínico e organizacional, consultor, palestrante e presidente da SOMMA4 Consultoria em Gestão de Pessoas e do IPAT - Instituto Paulista de Análise Transacional. Foi diretor de Recursos Humanos em empresas nacionais e multinacionais, recebendo vários prêmios pela excelência em Gestão de Pessoas. É autor de uma dezena de livros, como "A Empresa Sorriso" e "A Terceira Inteligência", e mais de 200 artigos sobre o comportamento humano - pessoal e profissional, publicados em websites, jornais e revistas, inclusive no Exterior.

E-mail: florianoserra@somma4.com.br
florianoserra@terra.com.br

Publicado no Portal da Família em 17/02/2008

sábado, 18 de julho de 2009


O MONGE E O PÁSSARO


Michel Zink




Era uma vez um monge. Segundo o costume daqueles tempos, seus pais tinham-no consagrado a Deus desde a nascença e enviado ao mosteiro quando ainda era criança. Agora, encontrava-se no limiar da velhice. Não se arrependia de ter passado a vida toda no mesmo convento, entre o coro e o dormitório, entre a sala do capítulo e o refeitório, entre o acolhimento aos peregrinos na hospedaria e a cópia de manuscritos no scriptorium. Tinha sido um monge feliz, o que quer dizer um bom monge. A sua fé era confiante, a sua consciência pura. Esperava em paz que Deus, a quem servira neste mundo, o acolhesse no outro.

Uma única inquietude o atormentava. Um monge leva uma vida regular, isto é, uma vida submetida a regras e uma vida em que cada dia, compassado pelas horas do ofício divino da manhã até a noite, de matinas a completas, é idêntico àquele que o precedeu e àquele que o seguirá. Idêntico? Bem, não propriamente. O ano litúrgico flui, alternando os tempos de penitência com os tempos de alegria: ao tempo do Advento sucede o tempo de Natal, ao tempo da Quaresma o tempo Pascal. Assim a liturgia desenrola a imagem da vida de Cristo e modela a vida do cristão. Mas o ano termina, e outro ano igual começa.

Essa regularidade, essa monotonia, esse retorno dos dias e dos anos não pesavam ao nosso monge, pois nunca conhecera nada diferente. Sabia, sobretudo, que esta vida tem um final, e vivia na espera da outra, da verdadeira. E aí estava a inquietação que o roía. Os eleitos, no Paraíso, cantam os louvores de Deus, como o fazem os monges neste mundo, mas nada mais têm a esperar; fazem-no por toda a eternidade. E o nosso monge temia que a eternidade acabasse por pesar-lhe: por mais feliz que se possa ser no seio de Deus, tinha medo de aborrecer-se ali.

Certa manhã, na hora do recreio que se segue à reunião do capítulo, foi, conforme o seu hábito, passear um pouco na floresta que confinava com o mosteiro. Era o tempo Pascal, que coincide com a primavera: o ar era vivo e leve, odorífero sem estar carregado de nenhum perfume em particular. As folhas tenras das árvores, a erva, o musgo, tudo estava fresco, claro e alegre. O monge sentou-se ao pé de um freixo cujas pequenas folhas alongadas traçavam sobre a terra o rendilhado de uma sombra ligeira. Minúsculas violetas escondiam-se entre as ervas. Um pouco adiante, onde plantas mais altas e mais escuras assinalavam uma depressão úmida, talvez uma fonte, havia anêmonas e, mais além, narcisos.

O monge encostou-se ao tronco da árvore e pensou mais uma vez na questão que o preocupava. Sabia muito bem que não tinha razão em levantá-la. Tinha escrúpulos e censurava-se por fazê-lo. Mesmo assim, porém, teria agradecido muito a Deus que o tranqüilizasse, dando-lhe ao menos um indício do que o esperava no paraíso.

Como permanecia ali perfeitamente imóvel, um pássaro que se tinha calado à sua aproximação, voltou a cantar. O seu canto era tão puro, tão modulado, tão melodioso, que o monge esqueceu as suas cavilações para escutá-lo. Pareceu-lhe nunca ter ouvido nada tão belo. Todas as melodias do oficio divino e das horas monásticas, as antífonas e os responsórios, os tropos e as seqüências, os hinos e os salmos que cantava no coro com os seus irmãos; todas essas melodias que, cada uma à sua maneira, subiam da nota base à terceira ou à quinta, desdobravam os seus melismas em torno da dominante, e de¬pois desciam suavemente até a inicial, como se seguissem as arcadas da abóbada da igreja ou do claustro; todas essas me¬lodias que para ele encarnavam a beleza e a paz – todas elas pareceram-lhe de repente insípidas em comparação com as poucas notas que formavam o canto daquele pássaro.


Ao cabo de um instante, pensou que era hora de voltar ao mosteiro, se não queria atrasar-se para o oficio de terça. Levantou-se, e o pássaro calou-se. Mal chegou à entrada do mosteiro, qual não foi a sua surpresa quando viu que o irmão porteiro, que ele cumprimentara uns instantes antes ao sair, tinha sido substituído por outro monge, e um monge que ele não conhecia! Esse novo porteiro também não o conhecia, pois olhou-o surpreso, perguntando-lhe o que desejava. Confundido, um pouco irritado, o nosso monge respondeu-lhe que só queria entrar, e entrar depressa para não chegar tarde ao oficio divino. O outro olhava-o sem parecer compreendê-lo.

– Mas – acabou por dizer –, não sois desta abadia.

– Como assim? Como não sou desta abadia! Sou... E disse o seu nome.

A surpresa do porteiro transformou-se em suspeita.

– Não há ninguém aqui com esse nome.

O monge começou a pensar que a brincadeira se estava alongando demais. Levantou a voz e exigiu que se chamasse o abade. O outro acabou por ceder. Mas, quando o abade chegou, o monge também não o reconheceu: não era o seu abade! Começou a ter medo. Balbuciando um pouco, repetiu que tinha saído apenas para um breve passeio, que talvez se tivesse atrasado por uns instantes para escutar um pássaro, mas que se apressara a voltar para não se atrasar para o oficio – como se tais explicações pudessem esclarecer aquela situação incompreensível. O abade desconhecido olhava-o e escutava-o em silêncio.

– Há cem anos – disse por fim –, havia nesta abadia um monge que tinha o vosso nome. Certo dia, mais ou menos a esta hora e nesta estação, saiu do mosteiro. Nunca mais regressou e nunca ninguém tornou a vê-lo.

Então o monge compreendeu que Deus o escutara. Se cem anos lhe tinham parecido um instante no arroubamento em que o mergulhara o canto do pássaro, a eternidade não seria senão um instante no arroubamento em Deus. Confessou ao abade a inquietação que experimentara durante tanto tempo, e, sentindo cair sobre si o peso de toda aquela centúria, morreu em paz entre os seus braços.


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(*) Adaptado do sermão 18, para o terceiro domingo depois da Páscoa, das Homilias de Maurice de Sully.

Nascido por volta de 1120, numa família modesta de Sully-sur-Loire, Maurice tornou-se em 1160 bispo de Paris, onde empreendeu a construção da catedral de Notre-Dame. Excelente administrador da sua diocese, compôs um compêndio de sermões ou homilias que foi usado durante séculos como ajuda para a pregação. Há uma versão latina e uma francesa desse sermonário. Usamos Maurice de Sully and the Medieval Vernacular Homily. With the Text of Maurice´s French Homilias from a Sens Cathedral Chapter Ms., ed. C.A. Robson, Oxford, Basil Blackwell, 1952, págs. 124-127.

Conto medieval, selecionado e reescrito por Michel Zink, que oferece ao leitor moderno uma pequena demonstração da fé viva, generosa e fervente praticada na vida de cada dia do homem da Idade Média.


Michel Zink
Nascido em 1945, é Doutor em Letras. Foi professor da Universidade de Toulouse e da Sorbonne, e atualmente leciona Literatura Francesa Medieval no Collège de France. Foi também professor visitante das Universidades de Berkeley, Constança, John Hopkins, Nápoles, Penn, Roma, Santiago de Compostela e Yale.


Fonte: O Jogral de Nossa Senhora. Quadrante, São Paulo: 2001. Págs. 68-71.
Tradução: Quadrante




segunda-feira, 22 de junho de 2009



A PALHA NO OLHO ALHEIO



Valter de Oliveira





Certa vez, o Senhor disse aos que o escutavam: Como vês a palha no olho do teu irmão, e não vês a trave no teu? Ou como ousas dizer ao teu irmão: Deixa que eu tire a palha do teu olho, tendo tu uma trave no teu? Hipócrita: Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás tirar a palha do olho do teu irmão. (Mt 7, 3-5).

Isto é o que Deus nos pede, ou melhor, nos manda. É difícil porque somos orgulhosos. Porque facilmente aumentamos as faltas dos outros. Pior, frequentemente tendemos “a projetar nos outros o que na realidade são imperfeições e erros próprios” (1). Por outro lado, quando se trata de olhar nossas más ações procuramos diminuir e justificar nossos defeitos pessoais. Nossa trave passa a ser uma simples palha.

A atitude de quem é humilde, ou seriamente procura sê-lo, ajuda-nos a ter a mansidão evangélica. A convivência passa a ser suave, doce, humana, cristã. Sabe que todos temos a tríplice concupiscência, que temos misérias, que necessitamos da misericórdia de Deus. E daí se trata o próximo com benignidade, desculpando e perdoando quando necessário. Não se esquece que só Deus lê os corações e os rins.

Curioso que tudo isso é perfeitamente sabido por qualquer cristão de instrução média. Mas, infelizmente, há um abismo entre o conhecimento e a prática. Em minha vida já vi essa contradição entre os que se gabam de ter muita fé e ortodoxia. E a sinto em minha própria vida, quando miseravelmente não tenho paciência com meus filhos e minha esposa. Ou quando ponho pequenos defeitos de meus amigos acima de suas grandes qualidades...

Então, não temos que ver os defeitos? E combatê-los?

Claro que temos. E por isso a Igreja nos aconselha a fazer um sério exame de consciência todos os dias. Para ver e combater nossos defeitos. E os do próximo? Eis o conselho de Santa Teresa:

"Procuremos sempre olhar as virtudes e coisas boas que vemos nos outros, e tapar os seus defeitos com os nossos grandes pecados. Ainda que depois não o consigamos com perfeição, este é um modo de agir que nos faz ganhar uma grande virtude, que é a de termos a todos por melhores do que nós. E assim começamos a ganhar o favor de Deus”. (2)

Em nossa vida diária, em casa ou no trabalho, encontramos muitas deficiências e mesmo pecados externos. Vemos murmurações, grosserias, atos vingativos, até violência. Conforme as circunstâncias podemos ter a obrigação de intervir. Mas, em geral, nossa atitude pessoal deve ser positiva, isto é, saber olhar com misericórdia, com caridade. Em primeiro lugar devemos rezar por todos, “desagravar o Senhor, crescer em paciência e fortaleza, querer-lhes bem e apreciá-los mais, porque necessitam mais da nossa estima.” (3)

Não foi esta a atitude de Cristo com os apóstolos apesar de todas as suas misérias?

A lei de Deus não nos manda amar apenas os bons, ou os que nos agradam, ou que nos fazem bem. Manda-nos amar a todos. Até os inimigos. E mesmo estes, ensina-nos a moral católica, temos a obrigação de tratar com a devida cortesia.

Tudo isso é para ser realizado cotidianamente. A atitude de humildade exige que “a nossa atitude deve ser sempre aberta, amistosa, desejosa de ajudar a todos. E não se trata de viver essa virtude com pessoas ideais, mas com aqueles com quem convivemos ou trabalhamos.” (4)

Vamos encontrar a preguiça e a inveja, a murmuração e a soberba, a impureza e o ódio. Ou simplesmente o mau humor de quem levantou indisposto ou cansado. É aí que temos que praticar a caridade. Temos que conviver, estimar e ajudar seres humanos reais que Deus colocou em nossas vidas.

Se tivermos a graça de sermos assim não tomaremos como norma reparar na palha no olho alheio. A caridade crescerá em nossas almas. E saberemos saborear as doçuras do amor de Deus.


Notas:

Todas as citações foram extraídas da obra de

CARVAJAL. Francisco Fernandez. “Falar com Deus”, vol.3. Quadrante, São Paulo, 1990. p. 500 -502.