segunda-feira, 12 de abril de 2010


IGREJA -
INFORMAÇÃO VERSUS CAMPANHA


Carlos Alberto Di Franco



A imprensa brasileira tem noticiado a respeito da crise que fustiga a Igreja Católica com razoável serenidade e equilíbrio. Os casos de abuso sexual protagonizados por clérigos são, de fato, matéria jornalística inescapável. O que me impressiona, e muito, é a perda do sentido informativo e o inequívoco tom de campanha assumido por alguns jornais norte-americanos.

Infelizmente, os casos reais de abuso sexual, ocorridos nas últimas décadas, mesmo que tenham sido menos numerosos do que fazem supor certas reportagens, são inescusáveis. Nada pode justificar nem atenuar crimes abomináveis como o estupro e a pedofilia. Um só caso de pedofilia, praticado na Igreja Católica por um padre, um religioso ou uma religiosa, é sempre demais, é inqualificável. Mas jornalismo não pode ser campanha. Devemos, sem engajamentos ou editorialização da notícia, trabalhar com fatos. Só isso nos engrandece. Só isso dá ao nosso ofício credibilidade e prestígio social. Pois bem, amigo leitor, vamos aos fatos.

O Vaticano recebeu 3 mil denúncias de abuso sexual praticado por sacerdotes nos últimos 50 anos. Segundo monsenhor Scicluna, chefe da comissão da Santa Sé para apuração dos delitos, 60% dos casos estão relacionados com práticas homossexuais, 30% com relações heterossexuais e 10% dos casos podem ser enquadrados como crimes de pedofilia. Os números reais de casos de pedofilia na Igreja são, portanto, muito menores.

Os abusos têm sido marcadamente de caráter homossexual e refletem um grave problema de idoneidade para o exercício do sacerdócio. Afinal, uma instituição que há séculos defende o celibato sacerdotal tem o direito de estabelecer os seus critérios de idoneidade, o seu manual de instruções para a seleção de candidatos. Quem entra sabe a que veio. É tudo muito transparente. Quem assume o compromisso o faz livremente. O que não dá, por óbvio, é para ficar com um pé em cada canoa. E foi exatamente isso o que aconteceu. A Igreja está enfrentando as consequências de anos e anos de descuido, covardia e negligência dos bispos na seleção e formação do clero.

Philip Jenkins, um especialista não católico de grande prestígio, publicou o estudo mais sério sobre a crise. Pedophiles and Priests: Anatomy of a Contemporary Crisis (Oxford, 214 págs.) é o mais exaustivo estudo sobre os escândalos sexuais que sacudiram a Igreja Católica nos Estados Unidos durante a década de 1990. Segundo Jenkins, mais de 90% dos padres católicos envolvidos com abusos sexuais são homossexuais. O problema, portanto, não foi ocasionado pelo celibato, mas por notável tolerância com o homossexualismo, sobretudo nos seminários dos anos 70, quando foram ordenados os predadores sexuais que sacudiram a credibilidade da Igreja.

O autor não nega o óbvio: que existiram graves desvios; e, mais, que os bispos fracassaram no combate aos delitos. Jenkins, no entanto, mostra como os crimes foram amplificados com o objetivo de desacreditar a Igreja. A análise isenta dos números confirma essa percepção. Na Alemanha, por exemplo, existiram, desde 1995, 210 mil denúncias de abusos. Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas a padres católicos, menos de 0,2%. Por que só as 300 denúncias contra a Igreja repercutem? E as outras 209 mil denúncias? Trata-se, sem dúvida, de um escândalo seletivo.

As interpretações e as manchetes, em tom de campanha, não batem com o rigor dos fatos. Vamos a um exemplo local. Reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo, de 18/5/2009, página C4, abria com o seguinte título: Triplica o número de vítimas de abuso atendidas nas zonas sul e leste. E acrescentava ao título: Desde outubro, a média de novos casos passou de dez por mês para um por dia. Mesmo que o estudo se cinja às zonas leste e sul da cidade de São Paulo, por somarem milhões de habitantes, não deixa de ser uma amostra muito expressiva.

Trata-se de uma pesquisa realizada por várias ONGs de provada seriedade. Aponta como "novidade desconcertante" o fato de que "pais biológicos são a maioria entre agressores e, agora, avós também começam a aparecer neste grupo". No elenco da Rede Criança de Combate à Violência Doméstica, todos ou a quase totalidade dos agressores sexuais são casados. Por que então o empenho em fazer crer que os principais protagonistas de abusos sexuais são padres, e em atribuir a causa dos crimes ao seu compromisso celibatário?

Tentou-se, recentemente, atingir o próprio papa. Como lembrou John Allen, conhecido vaticanista e autor do livro The Rise of Benedict XVI, em recente artigo no The New York Times, o papa fez da punição aos casos de abuso uma prioridade de seu pontificado. "Um de seus primeiros atos foi submeter à disciplina dois clérigos importantes contra os quais pesavam denúncias de abuso sexual há décadas, mas que tinham sido protegidos em níveis bastante altos. Ele também foi o primeiro papa da história que tratou abertamente da crise." Bento XVI tem sido, de fato, firme e contundente.

Em recente carta ao Corriere della Sera, o senador italiano Marcello Pera, um laico no mais genuíno sentido italiano da palavra, assumiu a defesa do papa e foi ao cerne da polêmica. "Desencadeou-se uma guerra. Não propriamente contra a pessoa do papa, pois seria inviável. Bento XVI tornou-se invulnerável por sua imagem, sua serenidade, sua clareza e firmeza." A guerra continuará, "entre outras razões, porque um papa como Bento XVI, que sorri, mas não retrocede um milímetro, alimenta o embate".

Precisamos informar com o rigor dos fatos. Mas devemos, sobretudo, entender o que se esconde por trás de algumas manchetes e de certas interpretações.


DOUTOR EM COMUNICAÇÃO PELA UNIVERSIDADE DE NAVARRA, PROFESSOR DE ÉTICA, É DIRETOR DO MASTER EM JORNALISMO (WWW.MASTEREMJORNALISMO.ORG.BR)

E DA DI FRANCO - CONSULTORIA EM ESTRATÉGIA DE MÍDIA (WWW.CONSULTORADIFRANCO.COM)




segunda-feira, 5 de abril de 2010


A DOR, AS TREVAS, A LUZ






Valter de Oliveira

Quinta feira. Última ceia do Senhor.

Tudo foi preparado cuidadosamente. Jesus recita os salmos serenamente, com voz suave e firme.

Ali estavam seus discípulos, com quem Ele desejara ardentemente passar sua última Páscoa. O que faziam eles?

O Evangelho narra que começaram a discutir qual deles seria o maior...

Senhor, eles estavam em uma ceia testamentária, afetuosa, imensamente triste. Não viam, não percebiam a sublimidade do que ali se passava. Estavam voltados para si mesmos.

Como nós, Senhor. Como eu. Perdoai-nos.

Discutiam ninharias. O que fizestes? Destes uma imensa lição de humildade e amor. De joelhos lavastes os pés de quem Vos esquecia...

E o que mais? Instituístes a Eucaristia! É a Vossa presença entre nós até o fim dos tempos! É Vosso amor por nós.

Perdoai-nos, Senhor. E obrigado. Mil vezes obrigado.

Depois fostes preso. Os apóstolos fugiram. Vosso santo calvário começava logo após a Ceia. Vão atar Vossas mãos. Simplesmente porque faziam o bem.


Sexta-feira: toda Vossa dor. Devido a nossos pecados...

Já fostes traído por Judas. Espancado, cuspido, caluniado diante do Sumo Sacerdote. E confirmastes que sois o Cristo, o Filho de Deus bendito.

Logo depois Pedro Vos traiu, como predissestes.

Pilatos não viu em Vós culpa alguma. E mandou Vos açoitar...

Depois veio a coroação de espinhos e a via Sacra.

Na Cruz entregastes Vossa Santa Mãe a João. Assim recebemos a Virgem como Mãe de todos nós.

Finalmente Vos crucificaram. E Jesus, “dando um grande brado” expirou.

As trevas caíram sobre a Terra.

Ao cair da tarde José de Arimatéia, corajosamente, apresentou-se a Pilatos e pediu vosso Sacratíssimo Corpo. O governador romano consentiu.

O Evangelho de S. Marcos nos diz: “José, tendo comprado um lençol, tirando-O da cruz, envolveu-O no lençol, depositou-o num sepulcro, que estava aberto na rocha, e rolou uma pedra para diante da entrada do sepulcro. Entretanto, Maria Madalena e Maria, mãe de José, estavam observando onde era depositado”. (Mc 15, 46,47).


Sábado: a Fé da Virgem.

Os apóstolos estavam sós. Desnorteados esqueceram-se do que o Mestre lhes ensinara. As trevas da sexta-feira permanecia em suas almas. Deixaram de ver.

A tradição nos diz que em uma alma a luz permaneceu. Maria Santíssima permaneceu plenamente fiel. Confiante que as promessas de seu Divino Filho iriam se realizar. Sabia que a Redenção fora concluída. Por um grande preço. Por um preço infinito. Por todos nós.

É doce lembrar que foi a Virgem que “protegeu com a sua fé, com a sua esperança e o seu amor esta Igreja nascente, débiul e assustada. Assim nasceu a Igreja: ao abrigo de nossa Mãe. Já desde o princípio Maria foi a Consoladora dos Aflitos”. (1) (Carvajal, Francisco Fernandes. Falar com Deus, Quadrante, São Paulo, 1990, p. 235).


Domingo: A alegria da Ressurreição.

As trevas desaparecem. A morte é derrotada. Cristo ressuscita. A luz invade o mundo e as almas.

A liturgia de entrada da Missa da segunda-feira do tempo pascal nos diz:

O Senhor ressuscitou dos mortos, como havia anunciado, alegremo-nos e regozijemo-nos todos, porque Ele reina para sempre. Aleluia!

A Páscoa é nossa maior festa. Dia de imensa alegria.

A alegria cristã vem da Fé. Vem da vitória de Cristo sobre a morte e o pecado.

Que a Virgem ajude a todos nós a levar até os confins da Terra, em todos os momentos, em todas as situações, a alegria dos filhos de Deus.

sábado, 20 de março de 2010



A QUARESMA, TEMPO DE PENITÊNCIA (1)


Valter de Oliveira





Com freqüência esquecemos que o pecado é pessoal. Não é um erro novo. Hoje ele é agravado por certas ideologias que insistem em apontar as estruturas sociais e o capitalismo como os únicos responsáveis pelo mal no mundo. Esquecem da responsabilidade que cabe a cada um de nós.

Responsabilidade que foi apontada pelo profeta Ezequiel ao advertir os judeus sobre o desterro que tinham sofrido. O castigo advirá não de pecados passados mas dos pecados atuais de cada indivíduo. Ele diz: “Assim diz o Senhor: o pecador deve perecer. O filho não responderá pelas faltas do pai nem o pai pelas faltas do filho. É ao justo que se imputará a sua justiça e ao mau a sua malícia."
Neste mesmo sentido diz João Paulo II: “No seu sentido próprio e verdadeiro, o pecado é sempre um ato de um homem, individualmente considerado, e não propriamente de um grupo ou de uma comunidade”. (Exort. Apost. Reconciliatio et Paenitentia 2 dez 1984, 16.).

O pecador deve cooperar com Deus com o arrependimento e com obras de penitência.

Não mascaremos nossas falhas. Não fujamos de nossas responsabilidades. Saibamos dizer com humildade: “Eu reconheço a minha iniqüidade e o meu pecado está sempre diante de mim”.
Deus nos disse: “Vai e não tornes a pecar” (Jo, 8,11). Mas os pecados deixam um vestígio na alma. Isso nos cria más disposições. Também há pecados e faltas que não percebemos por falta de delicadeza, por falta de espírito de exame. São como más raízes que temos que arrancar pela penitência. Caso contrário teremos frutos amargos.

Deus não nos pede grandes mortificações. Pede que as façamos com amor, coisas simples: podemos mortificar nossos gostos nas refeições, ser pontuais, vigiar a imaginação. E outras penitências que nos ajudem a purificar nossas almas e reparar pecados nossos e alheios.

Há outro ponto que devemos lembrar.

O pecado, se bem que pessoal, não deixa de produzir efeito nos demais homens. Sempre estamos influindo e sendo influenciados. E há algo mais profundo: a Comunhão dos Santos, graças à qual se pode dizer que “cada alma que se eleva, eleva o mundo”.
O Papa João Paulo II lembra-nos também que há, infelizmente, uma lei de descida, uma comunhão de pecado. Desse modo podemos prejudicar a Igreja e, de certa maneira, o mundo inteiro. Por mais secreto que seja nosso pecado.

Deus quer que sejamos motivo de alegria e luz para toda a Igreja. Precisamos pensar no Corpo Místico de Cristo. Sofrer por ele. Se sentirmos a Comunhão dos Santos seremos de bom grado homens e mulheres penitentes. Será mais fácil cumprir o dever.

Nossa penitência deve ser discreta, alegre, não percebida. Traduzida em atos concretos e não só em bons desejos.

O Evangelho nos lembra que a melhor penitência é a que se manifesta em atos de caridade. “Se estás para fazer a tua oferenda diante do altar vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão: só então vem fazer a tua oferenda.”

Que nessas últimas semanas da Quaresma a Virgem nos ajude a amar muito, Dar esmolas. Dedicar-se. Como nos diz S. Josemaria Escrivá: “Perdoemos sempre, com o sorriso nos lábios. Falemos com clareza, sem rancor. Pelo contrário, procuremos apresentar ao Senhor muitos atos de compreensão, de cortesia, de generosidade, de misericórdia. Assim o seguiremos pela Via-Sacra que Ele nos traçou e que o levou a deixar-se pregar na Cruz” (2)

Notas

1. Texto adaptado de “Falar com Deus”, Francisco Fernandez Carvajal, vol 2
Quadrante, São Paulo, 1990.

2. S. Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n.72.

quarta-feira, 3 de março de 2010


O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO


José Antônio Oliveira de Resende



Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.

- Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre. E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.

- Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável! A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha - geralmente uma das filhas - e dizia:

- Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga?

A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:

- Vamos marcar uma saída!... - ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...

Que saudade do compadre e da comadre!



José Antônio Oliveira de Resende é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do

Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.