terça-feira, 28 de janeiro de 2025

OS HOMENS SÃO IGUAIS?

 Valter de Oliveira


Hoje cedo li um artigo de um amigo no FB no qual ele discutia a tão falada desigualdade entre os homens. Na verdade ele comentava artigo publicado no Estado de São Paulo onde um jornalista lamentava a tremenda desigualdade existente entre os mais ricos e os mais pobres.  (1) É isso um mal? Necessariamente não. Não é a existência de ricos que provoca a pobreza, a miséria, a fome. As causas são muitas. A desigualdade, porém, é tida pelo progressismo na Igreja e pelo esquerdismo, na sociedade, como um mal em si mesmo. Eles denunciam a  pobreza existente para tentar nos convencer que devemos lutar por uma sociedade igualitária.  Nesta, acreditam, todos teriam dignidade humana, os bens necessários para viver, enfim, um belo mundo, com um novo homem, no qual  imperaria a justiça social. 

Defensor que sou da DSI (Doutrina Social da Igreja) lembrei-me que há inúmeros documentos pontifícios que afirmam que há uma desigualdade natural entre os homens e que tal desigualdade não só é permitida por Deus mas também desejada. Ainda que não houvesse pecado original. Pobreza, miséria, exploração, crimes, barbáries são consequência do mau uso da liberdade humana, acompanhadas ou não de causas naturais que ocorreram - e ocorrem -em todo o transcorrer da história humana.

Lembrei-me, então, que ainda nos meus tempos de adolescente, para ser preciso com 17 anos, meu professor de sociologia havia dado uma aula explicando que a questão da desigualdade entre os homens tinha sido muito bem tratada por S. Tomás de Aquino. 

Na verdade, o grande doutor que estudou Aristóteles, que também defendeu que há uma desigualdade natural entre os homens, aprofundou a questão e a conciliou com a Fé Católica. 

Alguém pode me perguntar: -"Mas, não há autores que dizem que o Cristianismo contribuiu para a civilização e o bem do homem ensinando o princípio da Igualdade?"

É verdade. Lembro que um autor de Ciência Política, Leslie Lipson, dedica um capítulo para defender tal ideia. (2)

Uma das primeiras coisas que ele faz é mostrar a origem bíblica da Igualdade. Podemos ver em São Paulo:  "Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus".   Gálatas 3:28.  Frase semelhante encontramos na epístola do Apóstolo aos Colossences: "onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre, mas Cristo é tudo em todos" (Colossences 3.11). 

Deus criou a todos nós. Somos todos criados por Ele, à sua imagem e semelhança. Ademais Cristo também morreu por todos os homens, cada um de nós, sem exceção.

Esta é a chamada igualdade fundamental de todos os homens. 

Explicando a questão em linguagem Aristotélica-tomista e incorporada pela DSI:

Todo ser tem essência e acidente. Temos uma essência comum: todos somos "homens" criaturas racionais dotadas de inteligência, vontade, sensibilidade, indivíduos racionais dotados de corpo e alma. Nisso somos todos iguais. Os direitos que decorrem dessa igualdade deveriam ser proporcionados a todos os homens. Tarefa difícil. Falta muito para obtermos a também chamada igualdade substancial.  

Acontece que não somos apenas "homens" entendido de forma puramente abstrato. Eu sou um homem, essencialmente igual a minha esposa Sonia. Mas, em concreto, somos diferentes, somos acidentalmente diferentes. Quais são os acidentes? Tipo de inteligência, grau de sensibilidade, força ou fraqueza física, enfim as mil particularidades  que diferem um ser humano de outro. Entende-se assim toda a variedade e beleza  dos seres humanos. (3) 

Saber respeitar as desigualdades acidentais legítimas, as que podem provocar direitos,  também é uma questão que o homem não sabe lidar bem. 

Como disse antes tais desigualdades entre nós existiriam ainda que não tivesse havido o pecado original. Deus começou diferenciando homem e mulher. E também dizendo que deveríamos amar uns aos outros. 

Tal desigualdade, ensina S. Tomás e a Igreja, está presente também no Céu. A Virgem Maria é a mais excelsa das criaturas e suplanta até os anjos. Estes formam nove coros angélicos, cada um com sua finalidade. Quanto aos homens que tiverem a graça de viver no Paraíso eles serão plenamente felizes mas, não no mesmo grau. Há santos maiores que outros. Uns são uma grande taça, outros serão menores. Todos felizes, sem inveja, enlevados de admiração, na companhia eterna de Deus.  

Concluindo


Os seres humanos são iguais e diferentes. Uma imagem que pode ajudar é a de três triangulos equiláteros. Um tem 5 cm de lado; outro tem 4cm e outro tem 2cm. São iguais? Na forma (essência) sim, nas medidas (acidentes), não. Em matemática se diz que são semelhantes. Assim acontece conosco. Daí que era muito comum, até passado recente, dizer-se que os homens são semelhantes. 

Para a Igreja e para a Fé Cristã cada homem é um tesouro. Não esqueçamos disso. 

Ao lutarmos pela humanidade peçamos a Deus, com toda a alma que procuremos dar a cada um o que ele devevia ter em essência e, ao mesmo tempo, defender com amor e entusiasmo, tudo o que nos faz únicos e diferentes. 

Só aí haverá verdeira justiça conforme Deus. 

É possível neste mundo?


Notas:

1. O artigo se chama "Como mentir com estatística 1". Veja blog de Marcelo Guterman. https://www.facebook.com/@marcelo.guterman

2. LIPSON, Leslie. Os grandes problemas da ciência política: uma introdução à ciência política. Trad. Thomas Newlands Neto. Rio de Janeiro: Zahar. 1967. Ver capítulo sobre a igualdade. 

3. Santo Agostinho se pergunta porque Deus fez tantas criaturas. Ele responde que todo o universo e os homens são imagens de Deus. Cada ser, a seu modo, deve refletir uma perfeição divina para termos uma idéia da infinitude das perfeições divinas. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

UM RETIRO NA BASÍLICA DO CARMO

 

Valter de Oliveira


Ontem tive a alegria e a graça de participar de um breve retiro promovido pelos carmelitas na Basílica de Nossa Senhora do Carmo, em SP. Fui convidado por meu amigo, Renato Amaral, coordenador do grupo de oração "homens do terço", promovido pelos carmelitas da Basílica. O grupo de homens, como se pode ver pelo nome, reúne-se 

uma vez por semana, para rezar o rosário à Nossa Senhora. Tudo começou com a recitação dos mistérios gozosos. Recitação serena com belo ardor varonil acompanhada de alguns belos cânticos e seguida por uma nobre e piedosa missa com órgão, músicas bem cantadas e uma ótima homilia.

Às 10h tivemos um apetitoso café no pátio do Convento e, a seguir, toda a programação do retiro. Tudo com recolhimento, afabilidade e edificação  sob a orientação do acolhedor e gentil  frei Ivanildo. Na conversa, no almoço, soube que o pároco da Basílica - e responsável  maior por todas as suas atividades de apostolado e oração - é frei Thiago Borges. 

Foram horas muito proveitosas. Agradeço a todos pela recepção e peço à Virgem que continue abençoando o exemplar trabalho de todos. 

Em agradecimento por tudo resolvi colocar aqui no blog duas poesias de duas grandes santas carmelitas: Santa Teresa, a grande, e Santa Teresinha do Menino Jesus. Poesias que exprimem de modo particular o desprendimento que devemos ter e as nobres lutas que devemos travar para nos santificarmos na santa Igreja de Cristo. 


1. 

Santa Teresa de Ávila

Aspirações à vida eterna

Vivo sem em mim viver

E tão alta vida espero,

Que morro de não morrer.


 


Vivo já fora de mim

Desde que morro de amor;

Porque vivo no Senhor,

Que me escolheu para Si.

Quando o coração lhe dei,

com terno amor lhe gravei:

Que morro de não morrer.

 

Esta divina prisão,

do amor em que eu vivo,

fez a Deus ser meu cativo,

e livre meu coração;

e causa em mim tal paixão

ser eu de Deus a prisão,

Que morro de não morrer.

 

(...)

 

Só vivo pela confiança

De que um dia hei de morrer;

morrendo, o eterno viver

Tem por seguro a esperança.

Ó morte que a vida alcança,

Não tardes em me atender,

Que morro de não morrer.

 

Olha que o amor é bem forte!

Vida, não sejas molesta;

Vê, para ganhar-te resta

Só perder-te: - feliz sorte!

Venha já tão doce morte;

Venha sem mais se deter,

Que morro de não morrer.

 

Lá no céu, definitiva,

É que a vida é verdadeira;

Durante esta, passageira,

Não a goza a alma cativa.

Morte, não sejas esquiva;

Mata-me para eu viver,

Que morro de não morrer.

 

(...)

 

Se ausente de meu Deus ando,

Que vida há de ser a minha

Senão morte, mais mesquinha,

Que mais me vai torturando?

Tenho pena de mim, quando

Me vejo em tanto sofrer,

Que morro de não morrer.

 

(...)

 

Quando me alegro, Senhor,

Pela esperança em ver-te,

Penso que posso perder-te,

E se dobra a minha dor:

E vivo em tanto pavor,

Sem na espera esmorecer,

Que morro de não morrer.

 

Oh! Tira-me desta morte,

E dá-me, Deus meu, a vida;

Não me tenhas impedida

Por este laço tão forte.

Morro por ver-te, de sorte

Que sem ti não sei viver,

Que morro de não morrer.

 

Choro a minha morte já;

E lamento a minha vida,

Enquanto presa e detida

Por meus pecados está.

Ó meu Deus, quando será

Que eu possa mesmo dizer

Que morro de não morrer?

 

Santa Teresinha do Menino Jesus

 

MINHAS ARMAS

 



Do Poderoso visto as armaduras,

Pois Sua mão dignou-se me adornar.

Daqui por diante nada mais me assusta;

Quem me vai separar de Seu Amor?

Lançando-me, a Seu lado, em plena arena,

Sei que não temerei ferro nem fogo;

Saibam meus inimigos: Sou rainha,

Sou esposa de um Deus!

Jesus, guardarei as armaduras

Que visto ante Teus olhos adorados.

Meu mais belo ornamento, até morrer,

Serão meus santos votos!

 

Pobreza, meu primeiro sacrifício,

Vais seguir-me, até a morte, em toda parte,

Pois sei que, para poder correr na pista,

De tudo deve o atleta despojar-se.

Gozai, mundanos, o remorso e a dor,

Que são frutos amargos da vaidade.

Mas, na arena, alegre irei colher

As palmas da pobreza.

(...).

 

A Castidade faz-me irmã dos anjos,

Os espíritos puros, vitoriosos;

Hei de voar, um dia, em suas falanges.

Mas, neste exílio, lutarei como eles.

Sem repouso nem trégua hei de lutar

Pelo Senhor dos Reis que é meu Esposo.

Minha espada celeste é a Castidade

Que pode conquistar-Lhe corações.

A Castidade é minha arma invencível

Com que meus inimigos são vencidos.

Ela me torna, Oh! que prazer infindo,

Esposa de Jesus.

 

(Obediência)

Foi um anjo orgulhoso, entre esplendores,

Que disse: “Nunca irei obedecer!”

Mas grito, na noite desta vida:

“Quero obedecer sempre na terra”.

Sinto nascer em mim uma audácia santa,

Com que enfrento o furor de todo o inferno.

A Obediência é para mim couraça

E Escudo do coração.

Não quero outro esplendor, Deus dos Exércitos,

Só quero submeter minha vontade em tudo,

Pois a Obediência sempre há de cantar vitórias

Por toda a Eternidade.

 

Se tenho as armas poderosas do Guerreiro

E se, valentemente, O imitar na luta,

Como a Virgem das Graças encantadoras,

Quero também cantar em meu combate.

Fazes vibrar as cordas de Tua lira,

Que é, meu Jesus, meu próprio coração!

Então posso gozar Tuas misericórdias,

Cantar a força e a doçura.

Sempre sorrindo enfrentarei metralhadoras

E, nos Teus braços, meu Divino Esposo,

Cantando morrerei no campo de batalha,

Com as armas na mão!…

 

Fontes:

1.  https://www.salusincaritate.com/2018/12/poemas-de-santa-teresa-davila.html

2.       https://sites.google.com/view/vidacarmelitaeremita/in%C3%ADcio/poesias-santa-teresinha