sábado, 8 de março de 2025

DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA E O DIREITO A MIGRAR

 

INTRODUÇÃO DO BLOG CLARAVALCISTER:


Muito é discutido atualmente sobre o tema da migração. Mais ainda com as duras medidas que Trump quer usar para combater os imigrantes que entraram ilegalmente nos EUA. Aliás, devido a estas, o Papa Francisco enviou carta aos bispos dos EUA voltando a defender os direitos dos imigrantes. A carta, reafirma o ensinamento constante da Igreja sobre o tema. Nos meios católicos teve repercussões positivas mas também produziu ressalvas. As razões serão abordadas na próxima semana no site claravalcister.  

Na verdade, o que ocorre, mesmo em meios católicos, é um conhecimento parcial ou distorcido da Doutrina Social da Igreja (DSI) sobre migração e direitos de imigrantes e governos. Por isso mesmo, tendo em vista conhecermos melhor o que a Igreja diz, fiz uma pesquisa procurando textos mais completos sobre o assunto. Encontrei-o há um ou dois meses. Antes que eu começasse a publicá-lo veio a carta do Papa. Devido a isso, publiquei primeiro no site claravalcister a carta do Papa junto com um artigo que explica o pensamento do vice-presidente dos EUA - JD.Vance - sobre imigração e Ordo Amoris (1).

Por razões didáticas decidi  continuar, no site, os desdobramentos do pronunciamento do Santo Padre. Aqui, no blog, vou postar diariamente o texto da DSI que encontrei. A parte doutrinária é, a meu ver, excelente. Ademais, é bem completada por análises pontuais sobre a realidade política. (2)  Ele faz  parte de um curso sobre doutrina social da Igreja. Claro está que, especialmente nas análises concretas há muito campo para divergências dado que são abordagens históricas, sociológicas e econômicas. Não há que ser dogmático nesses pontos. O que temos que fazer, sempre, é procurar a verdade  Mais ainda quando temos que levar em conta diferentes países e contextos históricos. 

Observem que o autor, ao mesmo tempo que explica a DSI analisa também os problemas da imigração nos EUA. Outro ponto interessante é que ele afirma que certos pontos dela precisam ser melhor aprofundados. Como podem ver no texto, ele indica alguns pontos. Aliás, o debate público sobre este e vários outros temas da DSI pode contribuir para evitarmos ou diminuirmos tais lacunas. Por isso mesmo muitos documentos da Igreja convidam os leigos a colaborar no aperfeiçoamento de sua doutrina e, também, em sua aplicação. 

Segue o texto.  

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O Direito a Migrar e o Bem Comum

Andrew M. Yuengert

Conteúdo da Unidade

Introdução

O direito a migrar
Três argumentos a favor do direito a migrar

O bem comum do país anfitrião – investigação económica
Efeitos culturais
Efeitos fiscais
Efeitos nos trabalhadores nativos

Imigrantes pobres e os “nossos” pobres
O Prémio do Local
Ganhadores e possíveis perdedores da imigração

Conclusão – equilibrando as obrigações para com os ganhadores e os possíveis perdedores da migração

Referências e outras leituras para esta secção

Encíclicas papais e outros documentos da Igreja referidos nesta secção

Questões para discussão

Notas de rodapé

Sobre o autor


Introdução

São três os princípios que definem a posição da Doutrina Social da Igreja relativamente à imigração (Yuengert, 2004):

· Existe o direito a migrar, tanto a emigrar como a imigrar (Pacem in terris[1], 21; Populorum progressio, 69; Laborem exercens, 23).

· O direito a migrar não é absoluto. Os países anfitriões podem regular os fluxos de migrantes quando os encargos da imigração ameaçam o bem comum da nação (WDM (World Day for Migrants), 1993; WDMR (World Day for Migrants and Refugee), 2011.

· O direito a migrar é especialmente importante para migrantes pobres e refugiados; as nações não devem restringir os seus direitos de forma leviana ou arbitrária (WDMR, 2013; Evangelii gaudium, 210).

O Papa Francisco não alterou estes três princípios da Doutrina Social da Igreja sobre a imigração. Em consonância com a sua visão apostólica, no entanto, começou pelo terceiro princípio. Os imigrantes pobres e os refugiados são frequentemente marginalizados e vulneráveis e devem vir em primeiro lugar, não em último, nos nossos corações (WDMR, 2019). A caridade fraternal equilibra o amor saudável de alguém pela sua terra natal e o amor universal pelos mais necessitados dentro e fora da sua terra natal (Fratelli Tutti, 142).

O atual impasse político sobre a imigração desafia a Igreja a ser mais especifica relativamente ao seu segundo princípio. A Lei sobre a Reforma e o Controle da Imigração de 1987 prometeu uma combinação entre uma amnistia a três milhões de imigrantes ilegais e uma aplicação renovada da lei. Cumpriu-se a anistia, mas não a aplicação da lei, o que criou o cenário para um complicado conflito político. Trinta anos mais tarde, depois de décadas de grandes fluxos de imigração legal e ilegal, a população imigrante nos EUA é de 42 milhões de pessoas – 13% da população dos EUA (Blau e Mackie 2017, p. 19). O número de imigrantes ilegais é de 11 milhões, cerca de quatro vezes mais do que em 1987.

Nas últimas três décadas, as posições contrastantes sobre a imigração extremaram-se. Os movimentos reformistas da imigração em 2007 e 2013 prometeram um “caminho para a cidadania” a par com novas iniciativas de execução da lei. Todos os esforços acabaram por cair aos pés da suspeita conservadora de que, mais uma vez, a aplicação da lei não se concretizaria e da intolerância crescente da esquerda em relação a quaisquer restrições à imigração de países pobres[2]. Donald Trump foi eleito em parte com base nesta promessa de aplicação da lei, tendo em conta o permanente caos nas fronteiras. O impasse na Europa é igualmente complicado, embora se centre mais intensamente em questões de identidade nacional e nos efeitos dos imigrantes muçulmanos e pobres em culturas seculares homogéneas.

EUA tem população pobre excessiva
Os conflitos sobre a imigração contribuíram para o crescimento do nacionalismo populista nos EUA e na Europa. Os apoiantes destes movimentos (apelidados de “somewheres” por Goodhart, 2017) identificam-se mais com o local e com aqueles que partilham a sua comunidade e nação. Suspeitam que as elites que os governam (os “anywheres” de acordo com Goodhart) negligenciam os seus interesses a favor de iniciativas globais. Os populistas tendem a ser pobres e da classe operária; e nos EUA existem evidências de que não foram bem-sucedidos nem dentro nem fora dos mercados. As suas preocupações políticas centram-se na imigração e no comércio, que consideram ser ameaças ao seu bem-estar.

Com a polarização das políticas da imigração, a investigação econômica sobre os efeitos da imigração cresceu. As Academias Nacionais das Ciências publicaram recentemente um sumário compreensivo da investigação recente (Blau e Mackie, 2017). As conclusões básicas não mudaram desde o último relatório das Academias Nacionais na década de 1990 (Smith e Edmonston, 1997). A imigração tem grandes efeitos benéficos para os próprios imigrantes e efeitos positivos líquidos para os nativos de forma agregada. Embora o efeito agregado nos nativos seja positivo, os efeitos são distribuídos de forma desigual. A imigração tem um efeito pequeno mas provavelmente negativo nos salários dos trabalhadores nativos com baixas qualificações e tem efeitos geralmente modestos nos orçamentos governamentais (ainda que os efeitos difiram bastante entre estados e localidades e entre os governos estaduais e o nacional)[3].

Duas linhas de investigação, uma que aborda os benefícios da imigração para os imigrantes e outra que aborda o seu custo para os trabalhadores nativos, colocam em evidência o dilema trazido pelo desafio populista em relação a uma política de imigração generosa e à Doutrina Social da Igreja. Em primeiro lugar, novos estudos sobre “efeitos de lugar” documentam de forma clara os enormes benefícios da migração para os imigrantes pobres. Os ganhos económicos da migração não se resumem a uma simples redistribuição de bens materiais, revelando uma expansão moralmente significativa da produtividade da mão-de-obra imigrante.

Uma segunda linha de investigação toma como adquiridos os relativamente modestos efeitos negativos da migração nos nativos pobres, mas questiona se esses custos, ainda que modestos, serão aceitáveis. As transferências governamentais não protegeram os nativos pobres e os da classe operária das disfunções que resultam dos declínios, mesmo que modestos, nas perspectivas de emprego. Os desafios populistas à imigração trazem à superfície uma questão crucial: como devemos ponderar os grandes benefícios económicos para os imigrantes tendo em consideração as perdas relativamente modestas, mas humanamente significativas, para os trabalhadores nativos e para as suas comunidades? Deverá o fato de os nativos pobres serem “os nossos pobres” ter algum impacto nas nossas deliberações sobre as políticas?

A Doutrina Social da Igreja oferece-nos poucos recursos para lidar com a tensão entre os direitos dos migrantes pobres e vulneráveis e os efeitos negativos modestos da imigração nos nativos pobres e vulneráveis. Na teoria, os Papas aceitam a necessidade de avaliar o direito a migrar tendo em consideração os potenciais danos para o bem comum do país anfitrião. Na prática, rapidamente consideram as preocupações sobre os efeitos da imigração nos rendimentos e na cultura dos nativos como “nacionalismo agressivo” (FT, 159). O chauvinismo ético explícito de muitos movimentos populistas merece a crítica da Igreja. No entanto, a Igreja tem que explicar melhor o que é uma preocupação apropriada com o bem comum nacional – e quais são os contornos de um “nacionalismo bem-ordenado”.

A discussão sobre a economia da imigração será organizada em torno dos três princípios da Doutrina Social da Igreja sobre a imigração. A primeira secção analisa o direito a migrar e as suas ambiguidades à luz do bem comum tanto do país de origem como do país anfitrião. A secção seguinte analisa a investigação recente sobre os efeitos da imigração nos países anfitriões. A terceira secção examina a ênfase que a Igreja coloca na solicitude para com os pobres, contrastando os enormes benefícios para os imigrantes pobres com a situação dos pobres da classe operária nativa.

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Continuação: O Direito a Migrar  

Tema que fica para o próximo post. 

Notas da Introdução. 

1. Veja os links: 

https://www.claravalcister.com/papa-francisco-2/carta-do-papa-francisco-aos-bispos-dos-eua-sobre-a-questao-da-imigracao-e-deportacoes-em-massa/

https://www.claravalcister.com/igreja/o-que-e-o-ordo-amoris/


2. A Doutrina Social da Igreja dá os princípios que defende que devam ser aplicados na vida social. Cabe ao poder temporal com o auxílio dos cidadãos saber aplicá-los na sociedade. Neste sentido não cabe à igreja dizer como isso deve ser aplicado. Fosse assim o poder temporal não passaria de uma mão estendida do espiritual.  

Nota do texto de Andrew M. Yuengert

[1] Neste capítulo, as encíclicas papais, as exortações apostólicas e documentos similares serão referenciadas com o título completo na primeira referência e depois citadas apenas pelas suas iniciais. As mensagens do Dia Mundial do Migrante (World Day for Migrants) ou do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado (World Day for Migrants and Refugees) serão descritas pelas iniciais WDM e WDMR seguidas pela data.

[2] Muitos na direita do mercado livre partilham efetivamente o objetivo das fronteiras abertas da esquerda (Powell, 2015).

[3] Uma nova ênfase em imigrantes com altas qualificações reflete uma tendência geral nas discussões sobre políticas de imigração no sentido de “melhorar” o influxo de imigrantes. Qualquer mudança nas políticas de imigração para uma imigração qualificada em vez de pouco qualificada cria um potencial conflito com o terceiro princípio da Doutrina Social da Igreja, segundo o qual os direitos dos imigrantes pobres são da maior importância.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

ARTIGOS NO SITE CLARAVAL



 


Valter de Oliveira



Muita coisa importante aconteceu na vida da Igreja recentemente. Uma delas, como é sabido, é a notícia da internação do Santo Padre. A partir dessa realidade começaram especulações sobre como será o futuro da Igreja após o futuro conclave.

Esta notícia e outras foram objetos de artigos que postei em meu site claravalcister. Convido o amigo leitor a ler cada um deles. 

Segue a lista com breve apresentação.


1. Carta do Papa Francisco aos bispos dos EUA na qual é criticada a política de imigração e de deportação do Presidente Trump. Até aí, tudo bem. A Igreja tem o dever de falar em matéria moral e social. Contudo, exatamente nos meios católicos, houve cisões no sentido de se perguntar se o Pontífice estaria interferindo diretamente na soberania de um país. Hove apoio e crítica por parte dos católicos como será mostrado depois. Segue o link da carta: 

https://www.claravalcister.com/papa-francisco-2/carta-do-papa-francisco-aos-bispos-dos-eua-sobre-a-questao-da-imigracao-e-deportacoes-em-massa/

2. Pouco tempo antes da carta, o vice presidente dos EUA, JD.Vance, ao tratar da imigração defendeu que há um Ordo Amoris (ordem no amor) em nossa relação com o próximo. Houve quem saudasse sua opinião e houve quem dissesse que era uma teologia caipira.  Veja no artigo a discussão sobre o tema:

https://www.claravalcister.com/igreja/o-que-e-o-ordo-amoris/

3. Em artigo meu explico que meus textos e atuação em meus sites e blogs tem como base o papel do jornalista e o de historiador. A partir daí falo da complexidade da esolha de muitos temas porque exigem, além de pesquisa e conhecimento, que enfrentemos problemas de consciência. Ou tratemos deles. Por exemplo: católicos norte-americanos têm liberdade de fazer observações à carta do Papa aos bispos dos EUA. Ou, filialmente, têm obrigação de aceitar o que foi recomendado.  Veja no link. 

https://www.claravalcister.com/noticias/pra-que-tanta-noticia/

4. Falei sobre eventual conclave. Artigo que encontrei na revista dos jesuitas do RS publica a opinião de um historiador sobre o assunto. Segundo ele o conclave será feito com uma igreja profundamente dividida. Será?  Exagero ou realidade? 

https://www.claravalcister.com/igreja/a-saude-do-papa-obriga-uma-igreja-dividida-a-considerar-uma-substituicao-mais-incerta-do-que-nunca/

Convido os amigos a lerem esses artigos e acompanharem outros que posto semanalmente no site claraval. Neste blog continuarei dando preferência para temas espirituais e doutrinários  e  vidas de santos.

Sobretudo os convido para rezarem pelo Papa Francisco e pelo bem da Igreja e do mundo. Como o faz o Prelado do Opus Dei Mons. Fernando Ocáriz.

https://opusdei.org/pt-br/article/mons-ocariz-unidos-na-oracao-pela-rapida-recuperacao-do-papa/




terça-feira, 28 de janeiro de 2025

OS HOMENS SÃO IGUAIS?

 Valter de Oliveira


Hoje cedo li um artigo de um amigo no FB no qual ele discutia a tão falada desigualdade entre os homens. Na verdade ele comentava artigo publicado no Estado de São Paulo onde um jornalista lamentava a tremenda desigualdade existente entre os mais ricos e os mais pobres.  (1) É isso um mal? Necessariamente não. Não é a existência de ricos que provoca a pobreza, a miséria, a fome. As causas são muitas. A desigualdade, porém, é tida pelo progressismo na Igreja e pelo esquerdismo, na sociedade, como um mal em si mesmo. Eles denunciam a  pobreza existente para tentar nos convencer que devemos lutar por uma sociedade igualitária.  Nesta, acreditam, todos teriam dignidade humana, os bens necessários para viver, enfim, um belo mundo, com um novo homem, no qual  imperaria a justiça social. 

Defensor que sou da DSI (Doutrina Social da Igreja) lembrei-me que há inúmeros documentos pontifícios que afirmam que há uma desigualdade natural entre os homens e que tal desigualdade não só é permitida por Deus mas também desejada. Ainda que não houvesse pecado original. Pobreza, miséria, exploração, crimes, barbáries são consequência do mau uso da liberdade humana, acompanhadas ou não de causas naturais que ocorreram - e ocorrem -em todo o transcorrer da história humana.

Lembrei-me, então, que ainda nos meus tempos de adolescente, para ser preciso com 17 anos, meu professor de sociologia havia dado uma aula explicando que a questão da desigualdade entre os homens tinha sido muito bem tratada por S. Tomás de Aquino. 

Na verdade, o grande doutor que estudou Aristóteles, que também defendeu que há uma desigualdade natural entre os homens, aprofundou a questão e a conciliou com a Fé Católica. 

Alguém pode me perguntar: -"Mas, não há autores que dizem que o Cristianismo contribuiu para a civilização e o bem do homem ensinando o princípio da Igualdade?"

É verdade. Lembro que um autor de Ciência Política, Leslie Lipson, dedica um capítulo para defender tal ideia. (2)

Uma das primeiras coisas que ele faz é mostrar a origem bíblica da Igualdade. Podemos ver em São Paulo:  "Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus".   Gálatas 3:28.  Frase semelhante encontramos na epístola do Apóstolo aos Colossences: "onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre, mas Cristo é tudo em todos" (Colossences 3.11). 

Deus criou a todos nós. Somos todos criados por Ele, à sua imagem e semelhança. Ademais Cristo também morreu por todos os homens, cada um de nós, sem exceção.

Esta é a chamada igualdade fundamental de todos os homens. 

Explicando a questão em linguagem Aristotélica-tomista e incorporada pela DSI:

Todo ser tem essência e acidente. Temos uma essência comum: todos somos "homens" criaturas racionais dotadas de inteligência, vontade, sensibilidade, indivíduos racionais dotados de corpo e alma. Nisso somos todos iguais. Os direitos que decorrem dessa igualdade deveriam ser proporcionados a todos os homens. Tarefa difícil. Falta muito para obtermos a também chamada igualdade substancial.  

Acontece que não somos apenas "homens" entendido de forma puramente abstrato. Eu sou um homem, essencialmente igual a minha esposa Sonia. Mas, em concreto, somos diferentes, somos acidentalmente diferentes. Quais são os acidentes? Tipo de inteligência, grau de sensibilidade, força ou fraqueza física, enfim as mil particularidades  que diferem um ser humano de outro. Entende-se assim toda a variedade e beleza  dos seres humanos. (3) 

Saber respeitar as desigualdades acidentais legítimas, as que podem provocar direitos,  também é uma questão que o homem não sabe lidar bem. 

Como disse antes tais desigualdades entre nós existiriam ainda que não tivesse havido o pecado original. Deus começou diferenciando homem e mulher. E também dizendo que deveríamos amar uns aos outros. 

Tal desigualdade, ensina S. Tomás e a Igreja, está presente também no Céu. A Virgem Maria é a mais excelsa das criaturas e suplanta até os anjos. Estes formam nove coros angélicos, cada um com sua finalidade. Quanto aos homens que tiverem a graça de viver no Paraíso eles serão plenamente felizes mas, não no mesmo grau. Há santos maiores que outros. Uns são uma grande taça, outros serão menores. Todos felizes, sem inveja, enlevados de admiração, na companhia eterna de Deus.  

Concluindo


Os seres humanos são iguais e diferentes. Uma imagem que pode ajudar é a de três triangulos equiláteros. Um tem 5 cm de lado; outro tem 4cm e outro tem 2cm. São iguais? Na forma (essência) sim, nas medidas (acidentes), não. Em matemática se diz que são semelhantes. Assim acontece conosco. Daí que era muito comum, até passado recente, dizer-se que os homens são semelhantes. 

Para a Igreja e para a Fé Cristã cada homem é um tesouro. Não esqueçamos disso. 

Ao lutarmos pela humanidade peçamos a Deus, com toda a alma que procuremos dar a cada um o que ele devevia ter em essência e, ao mesmo tempo, defender com amor e entusiasmo, tudo o que nos faz únicos e diferentes. 

Só aí haverá verdeira justiça conforme Deus. 

É possível neste mundo?


Notas:

1. O artigo se chama "Como mentir com estatística 1". Veja blog de Marcelo Guterman. https://www.facebook.com/@marcelo.guterman

2. LIPSON, Leslie. Os grandes problemas da ciência política: uma introdução à ciência política. Trad. Thomas Newlands Neto. Rio de Janeiro: Zahar. 1967. Ver capítulo sobre a igualdade. 

3. Santo Agostinho se pergunta porque Deus fez tantas criaturas. Ele responde que todo o universo e os homens são imagens de Deus. Cada ser, a seu modo, deve refletir uma perfeição divina para termos uma idéia da infinitude das perfeições divinas. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

UM RETIRO NA BASÍLICA DO CARMO

 

Valter de Oliveira


Ontem tive a alegria e a graça de participar de um breve retiro promovido pelos carmelitas na Basílica de Nossa Senhora do Carmo, em SP. Fui convidado por meu amigo, Renato Amaral, coordenador do grupo de oração "homens do terço", promovido pelos carmelitas da Basílica. O grupo de homens, como se pode ver pelo nome, reúne-se 

uma vez por semana, para rezar o rosário à Nossa Senhora. Tudo começou com a recitação dos mistérios gozosos. Recitação serena com belo ardor varonil acompanhada de alguns belos cânticos e seguida por uma nobre e piedosa missa com órgão, músicas bem cantadas e uma ótima homilia.

Às 10h tivemos um apetitoso café no pátio do Convento e, a seguir, toda a programação do retiro. Tudo com recolhimento, afabilidade e edificação  sob a orientação do acolhedor e gentil  frei Ivanildo. Na conversa, no almoço, soube que o pároco da Basílica - e responsável  maior por todas as suas atividades de apostolado e oração - é frei Thiago Borges. 

Foram horas muito proveitosas. Agradeço a todos pela recepção e peço à Virgem que continue abençoando o exemplar trabalho de todos. 

Em agradecimento por tudo resolvi colocar aqui no blog duas poesias de duas grandes santas carmelitas: Santa Teresa, a grande, e Santa Teresinha do Menino Jesus. Poesias que exprimem de modo particular o desprendimento que devemos ter e as nobres lutas que devemos travar para nos santificarmos na santa Igreja de Cristo. 


1. 

Santa Teresa de Ávila

Aspirações à vida eterna

Vivo sem em mim viver

E tão alta vida espero,

Que morro de não morrer.


 


Vivo já fora de mim

Desde que morro de amor;

Porque vivo no Senhor,

Que me escolheu para Si.

Quando o coração lhe dei,

com terno amor lhe gravei:

Que morro de não morrer.

 

Esta divina prisão,

do amor em que eu vivo,

fez a Deus ser meu cativo,

e livre meu coração;

e causa em mim tal paixão

ser eu de Deus a prisão,

Que morro de não morrer.

 

(...)

 

Só vivo pela confiança

De que um dia hei de morrer;

morrendo, o eterno viver

Tem por seguro a esperança.

Ó morte que a vida alcança,

Não tardes em me atender,

Que morro de não morrer.

 

Olha que o amor é bem forte!

Vida, não sejas molesta;

Vê, para ganhar-te resta

Só perder-te: - feliz sorte!

Venha já tão doce morte;

Venha sem mais se deter,

Que morro de não morrer.

 

Lá no céu, definitiva,

É que a vida é verdadeira;

Durante esta, passageira,

Não a goza a alma cativa.

Morte, não sejas esquiva;

Mata-me para eu viver,

Que morro de não morrer.

 

(...)

 

Se ausente de meu Deus ando,

Que vida há de ser a minha

Senão morte, mais mesquinha,

Que mais me vai torturando?

Tenho pena de mim, quando

Me vejo em tanto sofrer,

Que morro de não morrer.

 

(...)

 

Quando me alegro, Senhor,

Pela esperança em ver-te,

Penso que posso perder-te,

E se dobra a minha dor:

E vivo em tanto pavor,

Sem na espera esmorecer,

Que morro de não morrer.

 

Oh! Tira-me desta morte,

E dá-me, Deus meu, a vida;

Não me tenhas impedida

Por este laço tão forte.

Morro por ver-te, de sorte

Que sem ti não sei viver,

Que morro de não morrer.

 

Choro a minha morte já;

E lamento a minha vida,

Enquanto presa e detida

Por meus pecados está.

Ó meu Deus, quando será

Que eu possa mesmo dizer

Que morro de não morrer?

 

Santa Teresinha do Menino Jesus

 

MINHAS ARMAS

 



Do Poderoso visto as armaduras,

Pois Sua mão dignou-se me adornar.

Daqui por diante nada mais me assusta;

Quem me vai separar de Seu Amor?

Lançando-me, a Seu lado, em plena arena,

Sei que não temerei ferro nem fogo;

Saibam meus inimigos: Sou rainha,

Sou esposa de um Deus!

Jesus, guardarei as armaduras

Que visto ante Teus olhos adorados.

Meu mais belo ornamento, até morrer,

Serão meus santos votos!

 

Pobreza, meu primeiro sacrifício,

Vais seguir-me, até a morte, em toda parte,

Pois sei que, para poder correr na pista,

De tudo deve o atleta despojar-se.

Gozai, mundanos, o remorso e a dor,

Que são frutos amargos da vaidade.

Mas, na arena, alegre irei colher

As palmas da pobreza.

(...).

 

A Castidade faz-me irmã dos anjos,

Os espíritos puros, vitoriosos;

Hei de voar, um dia, em suas falanges.

Mas, neste exílio, lutarei como eles.

Sem repouso nem trégua hei de lutar

Pelo Senhor dos Reis que é meu Esposo.

Minha espada celeste é a Castidade

Que pode conquistar-Lhe corações.

A Castidade é minha arma invencível

Com que meus inimigos são vencidos.

Ela me torna, Oh! que prazer infindo,

Esposa de Jesus.

 

(Obediência)

Foi um anjo orgulhoso, entre esplendores,

Que disse: “Nunca irei obedecer!”

Mas grito, na noite desta vida:

“Quero obedecer sempre na terra”.

Sinto nascer em mim uma audácia santa,

Com que enfrento o furor de todo o inferno.

A Obediência é para mim couraça

E Escudo do coração.

Não quero outro esplendor, Deus dos Exércitos,

Só quero submeter minha vontade em tudo,

Pois a Obediência sempre há de cantar vitórias

Por toda a Eternidade.

 

Se tenho as armas poderosas do Guerreiro

E se, valentemente, O imitar na luta,

Como a Virgem das Graças encantadoras,

Quero também cantar em meu combate.

Fazes vibrar as cordas de Tua lira,

Que é, meu Jesus, meu próprio coração!

Então posso gozar Tuas misericórdias,

Cantar a força e a doçura.

Sempre sorrindo enfrentarei metralhadoras

E, nos Teus braços, meu Divino Esposo,

Cantando morrerei no campo de batalha,

Com as armas na mão!…

 

Fontes:

1.  https://www.salusincaritate.com/2018/12/poemas-de-santa-teresa-davila.html

2.       https://sites.google.com/view/vidacarmelitaeremita/in%C3%ADcio/poesias-santa-teresinha