sexta-feira, 10 de abril de 2020

SEXTA-FEIRA SANTA



A QUEM BUSCAIS?

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada





"Sabendo Jesus tudo o que Lhe ia acontecer, adiantou-se e perguntou-lhes:  -"A quem buscais?" Eles responderam-Lhe: -"A Jesus o Nazareno". Jesus disse-lhes: -Sou Eu".


O que aconteceu há dois mil anos, está sempre a acontecer: de certo modo, todos os homens, de todos os tempos, procuram Jesus.

Quem procura a Cristo?

Procuram-no aqueles que, como Pôncio Pilatos, O querem matar, para se desembaraçarem de alguém que se opõe aos seus mesquinhos calculismos e propósitos de um carreirismo sem escrúpulos.

Procuram-no aqueles que, como Judas, d'Ele se querem servir para conseguir um valioso resgate, comprado pelo preço de uma ignominiosa traição, perpetrada na hipocrisia de um beijo.

Procuram-no aqueles que, como o bom ladrão, desfeita a última esperança humana, sabem que só n'Ele podem encontrar o caminho que conduz ao paraíso.

Procuram-no aqueles que, como a mulher pecadora, beijaram e lavaram com as suas lágrimas os pés do divino Crucificado. Aqueles que muito pecaram, mas mais amaram, foram por isso mais perdoados também.

Procuram-no aqueles seus discípulos que, como João, souberam perseverar até ao fim, junto do seu Senhor.

Procuram-no aqueles que, como Maria, sua Mãe santíssima, souberam desaparecer na hora dos triunfo e dos aplausos, mas aparecem na hora tremenda dos insultos e da humilhação na Cruz.

"Quando Jesus lhes disse: - "Sou Eu", recuaram e caíram por terra". Repetindo, de algum modo, este gesto, os celebrantes da paixão de Cristo, que hoje substitui a celebração eucarística, prostram-se no chão, em sinal de contrição e de adoração.

Senhor Jesus, faz que eu, pecador, também me prostre hoje a teus pés, e nas lágrimas da minha contrição, lave os meus pecados e as ofensas do mundo inteiro para que, contigo, possa, como todos os meus irmãos, ressuscitar para a vida da graça"!


Fonte: www.spedeus.blogspot.com. 10 de abril de 2020


quinta-feira, 9 de abril de 2020

QUINTA-FEIRA SANTA



CONSIDERAÇÕES DE SÃO JOSEMARÍA ESCRIVÁ


(...)




Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos

Ao aproximar-se o momento da sua Paixão, o Coração de Cristo, rodeado por aqueles que ama, abre-se em inefáveis labaredas: dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros e que, do mesmo modo que eu vos amei, vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros (Jo 13, 34-35). (…)

Amai os vossos inimigos

Senhor, porque chamas novo a este mandamento? Como acabamos de ouvir, o amor ao próximo estava prescrito no Antigo Testamento e recordareis também que Jesus, mal começa a sua vida pública, amplia essa exigência com divina generosidade: ouvistes que foi dito: amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu peço-vos mais: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos aborrecem e orai pelos que vos perseguem e caluniam (Mt 5, 43-44).

Como eu vos amei

Senhor, deixa-nos insistir: porque continuas a chamar novo a este preceito? Naquela noite, poucas horas antes de te imolares na Cruz, durante aquela conversa íntima com os que – apesar das suas fraquezas e misérias pessoais, como as nossas – te acompanharam até Jerusalém, Tu revelaste-nos a medida insuspeitada da caridade: como eu vos amei. Como não haviam de te entender os Apóstolos, se tinham sido testemunhas do teu amor insondável!

(...)

O que distinguirá os cristãos de todos os tempos

Mais tarde explica aos Apóstolos o sinal pelo qual os reconhecerão como cristãos, não diz: porque sois humildes. Ele é a pureza mais sublime, o Cordeiro imaculado. Nada podia manchar a sua santidade perfeita, sem mácula (Cfr. Jo 8, 46). Mas também não diz: saberão que se encontram diante de discípulos meus, porque sois castos e limpos.

(...)

A característica que distinguirá os apóstolos, os cristãos autênticos de todos os tempos, já o ouvimos: nisto – precisamente nisto – conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros (Jo 13, 35).

Amigos de Deus, nn. 222-224

Extraído de www.spedeus.blogspot.com de 09 de abril de 2020. 

domingo, 5 de abril de 2020

ONDE ESTAVA DEUS?



ONDE ESTAVA DEUS NAQUELES DIAS?


Percival Puggina


     A pergunta lançada como um grito por Bento XVI ao visitar o campo de extermínio de Auschwitz em 2006 ecoa 14 anos mais tarde diante dessa versão hodierna da peste representada pelo Covid-19. Onde estava Deus quando permitiu o surgimento desse vírus que mata, enferma, esgota recursos naturais e financeiros, fecha igrejas, destrói empregos, joga bilhões de homens livres em prisão domiciliar?  Lembro que a pergunta profundamente humana de Bento XVI foi estampada em todos os jornais e replicada em todos os idiomas. Causava um certo desconforto, uma espécie de cheque mate teológico aplicado às pessoas de fé. Até, claro, pararmos para pensar.

       O Papa, qualquer Papa, é um ser humano sujeito às nossas angústias e inquietudes. Ele não fala com Deus todos os dias através do celular. Quem ainda não se interrogou sobre o silêncio de Deus? Quem, perante a dor, o sofrimento e a aflição, nunca clamou pela interferência direta do Altíssimo?

        O paciente Jó, sofredor sempre fiel, nos fornece antigo exemplo bíblico desses brados da nossa débil natureza, que soam e ressoam através das gerações. A manifestação de Bento XVI, que ele mesmo chamou de grito da humanidade, foi humilde e reiterada expressão dessa mesma humanidade. Nem mesmo Jesus escapou a tão inevitável contingência: "Pai! Por que me abandonaste?

       Não conheço Auschwitz. Contudo, visitei o campo de concentração de Daschau e o memorial lá existente. Saímos, minha mulher e eu, com a impressão de havermos visitado um santuário onde a presença de Deus era quase palpável. E isso não se constituiu numa contradição. Ao contrário, aquele lugar de tantos padecimentos se converteu, de modo inevitável, em silencioso ambiente de reflexão e oração, no qual se percebe com nitidez o que acontece quando os homens, prescindindo do Senhor do bem, se bestializam e se convertem em senhores do mal. 

É fácil imaginar, igualmente, a presença divina atuando nos incontáveis gestos de solidariedade que, por certo, ocorrem numa situação como aquela. Ativo no coração dos que o amam, ali agia o Deus de todas as vítimas, consolo dos que sofrem, esperança dos aflitos e destino final dos seus filhos. É claro que a nós pareceria mais proveitoso um Deus que atuasse como gerente supremos dos eventos humanos, intervindo para evitar quaisquer males, retificando a imprudência dos homens,  proclamando verdades cotidiana em dizeres escritos com as nuvens do céu, fazendo o bem que não fazemos, a todos santificando por ação de seu querer e pela impossibilidade do erro e do pecado. 

       Nesse paraíso terrestre, nada seria como é e nós não seríamos como somos. Não haveria cruz, nem Cristo. Não haveria lágrimas, nem dor. Tampouco morte ou vida. É o imenso respeito divino à nossa liberdade que configura a existência humana como tal e que nos concede o direito de bradar aos céus. No entanto, tão rapidamente quanto Deus nos ouve, ouve-nos nosso próprio coração. Sim, porque Deus estava ali, em Auschwitz, como estava em Daschau. Mas não havia para ele no coração dos algozes. 

       Nesta quaresma das quarentenas, nesta semana que nos leva à Páscoa da Ressurreição, aprendamos com as lições da história, da ciência e da prudência. Aprendamos com o que acontece quando o materialismo, o relativismo e os totalitarismos investem na concretização de seus próprios projetos de poder. Eles jamais abandonam o tabuleiro das opções e seus males sempre se fazem sentir. 

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Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org. É também colunista de vários jornais e escritor. 




       


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DOMINGO DE RAMOS





"O CORTEJO TRIUNFAL de Jesus transpôs o cume do monte das Oliveiras e desceu pela vertente ocidental a caminho do Templo, que se podia avistar dali. Toda a cidade surgiu diante dos olhos de Jesus. E, ao contemplar aquele panorama, Jesus chorou

Esse pranto, no meio de tantos gritos alegres e em tão solene entrada, deve ter sido completamente inesperado. Os discípulos devem ter ficado desconcertados. Tanta alegria que se quebrava subitamente, num instante!

Jesus vê como Jerusalém se afunda no pecado, na ignorância e na cegueira: Oh se ao menos neste dia, que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz! Mas agora tudo está oculto aos teus olhos. O Senhor vê como virão outros dias que já não serão como este, um dia de alegria e de salvação, mas de desgraça e ruína. Poucos anos mais tarde, a cidade será arrasada. Jesus chora a impenitência de Jerusalém. Como são eloquentes estas lágrimas de Cristo! Cheio de misericórdia, compadece-se da cidade que o rejeita.

Não ficou nada por tentar: nem milagres, nem obras, nem palavras, em tom severo umas vezes, indulgentes outras... Jesus tentou tudo com todos: na cidade e no campo, com pessoas simples e com sábios, na Galileia e na Judeia... Como também na nossa vida nada ficou por tentar, remédio algum por oferecer. Tantas vezes Jesus saiu ao nosso encontro, tantas graças ordinárias e extraordinárias derramou sobre a nossa vida! “De certo modo, o próprio Filho de Deus se uniu a cada homem pela sua Encarnação. Trabalhou com mãos humanas, pensou com mente humana, amou com coração de homem. Nascido de Maria Virgem, fez-se verdadeiramente um de nós, igual a nós em tudo menos no pecado. Cordeiro inocente, mereceu-nos a vida derramando livremente o seu sangue, e nEle o próprio Deus nos reconciliou consigo e entre nós mesmos e nos arrancou da escravidão do demônio e do pecado, e assim cada um de nós pode dizer com o Apóstolo: O Filho de Deus amou-me e entregou-se por mim (Gal 2, 20)”10.

(Falar com Deus, meditação do domingo de Ramos).