Nota prévia:
Em si a política é uma nobre arte. Tem em vista o bem comum de todos nós. A Santa Igreja convida-nos a participar dela de modo a criar condições de vida mehor para todo o povo. Condições que também devem favorecer a prática do bem ajudando-nos, assim, a alcançarmos nosso fim último que é Deus.
A política atual, especialmente no Brasil tem nos ajudado a sermos melhores? Os objetivos políticos propostos, as promessas de campanha, os meios usados para se conseguir o poder, ou permanecer nele, têm contribuído para que pratiquemos o bem? Ou tem sido o contrário.
O prof. Sidney Silveira, em artigo que considero primoroso e comovente, mostra que estamos bem longe disso. Abandonamos até mesmo vestígios da virtude. Que tristeza meus amigos, que tristeza!
Segue o texto. (V.O)
O MUNDO SEM BONS SAMARITANOS É
UM INFERNO NA TERRA
Sidney Silveira
Ocorre-me esta consideração ao
ver pessoas que anunciam não mais dar esmolas a mendicantes, na presunção de
que estes votaram na esquerda. Não me interessa discutir as relações entre a
indigência e determinadas opções eleitorais; interessa-me algo mais grave: o
estado de uma sociedade que parece haver perdido a noção do que seja a caridade
cristã.
A coisa é espantosa: a
política adquiriu ascendência sobre as consciências a ponto de o socorro aos
necessitados ser condicionado a uma conjectura eleitoral. Assim o mendicante,
antes de ser reconhecido como alguém que padece uma necessidade, é convertido
em adversário, e o que deveria ser ocasião para o exercício da misericórdia
transforma-se em oportunidade para uma represália.
Convém neste ponto distinguir:
uma coisa é um empresário não desejar manter nos quadros de sua empresa
funcionários cujas condutas contrariem os valores e os fins legítimos da
instituição de que é acionista ou dono. Outra, bem distinta, é dar as costas a
um pedinte por razões políticas. No primeiro caso, estão em jogo as exigências
de uma comunidade de trabalho; no segundo, a disposição da vontade perante a
miséria alheia.
A esmola, na tradição
católica, não é um favor que fazemos aos pobres quando estamos de bom humor,
nem um prêmio concedido àqueles cujas opiniões nos agradam. É uma obra de
misericórdia corporal e, em determinadas circunstâncias, um dever de caridade.
Santo Tomás de Aquino, na "Suma Teológica", formula a questão de saber
se dar esmolas constitui matéria de preceito, e responde afirmativamente, com
as distinções necessárias quanto às necessidades de quem pede e às
possibilidades de quem dá. Ninguém está obrigado a distribuir dinheiro a
quantos o solicitem, pois a prudência deve regular as circunstâncias da
beneficência. Mas uma coisa é exercê-la; outra é batizar com esse nome a recusa
de socorrer alguém por motivos estranhos à sua necessidade.
A tradição católica possui, a
esse respeito, uma riqueza doutrinal hoje desconhecida. No século XVI, Domingo
de Soto, um dos maiores teólogos da Escola de Salamanca, dedicou à questão dos
pobres uma obra de importância: a "Deliberación en la causa de los
pobres". Nela, Soto examina as restrições impostas à mendicância e os
deveres da sociedade para com os necessitados. O contraste com os nossos dias é
desconcertante: houve um tempo em que os maiores intelectos se ocupavam em
estabelecer os fundamentos dos deveres para com os pobres; hoje, as paixões
políticas parecem suficientes para obscurecer a evidência desses deveres.
A "ordo caritatis"
designa o princípio segundo o qual o amor deve dirigir-se aos seus diversos
objetos, tendo Deus como princípio e fim supremos. Não amamos a todos da mesma
maneira, nem temos para com todos idênticas obrigações. Os vínculos familiares,
as responsabilidades particulares e a gravidade das necessidades estabelecem
prioridades reais. Mas essas distinções não autorizam a subordinação da
caridade a paixões inferiores.
A sociedade não apenas se
afastou da caridade, mas perdeu a capacidade de reconhecê-la, e isto se
explica, em parte, pelo amesquinhamento do próprio conceito de caridade, que,
despojado de sua natureza teologal, acabou por confundir-se com a
solidariedade. Ora, esta última não se identifica com a virtude sobrenatural
pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor de Deus. A
caridade tem em Deus a sua origem, o seu motivo formal e o seu fim; a
solidariedade, quando desligada dessa referência, pode não ultrapassar os
limites de uma afinidade humana, por vezes circunscrita aos interesses de um
grupo.
Ora, quantas vezes aquilo que
hoje se apresenta sob o nome de solidariedade não perdoa, não suporta, não
espera, não se alegra com a verdade, não renuncia ao ressentimento e não
consegue reconhecer a dignidade de quem se encontra fora do círculo das
próprias simpatias?
É aí que se revela a
profundidade da nossa miséria espiritual: uma sociedade pode conservar
instituições de assistência, multiplicar campanhas beneficentes e proclamar a
sua solidariedade, sem por isso compreender o que seja a caridade. Pode até
socorrer os necessitados e, não obstante, fazê-lo por motivos alheios ao amor,
tanto natural quanto sobrenatural. São Paulo afirma que, ainda que distribuísse
todos os seus bens para alimentar os pobres, se não tivesse caridade, nada
disso lhe aproveitaria.
O próximo não perde a sua
condição de próximo porque erra, porque nos contraria ou porque professa idéias
que julgamos falsas. Amar alguém por caridade não significa aprovar-lhe os
erros, mas querer-lhe o bem em razão de Deus. E há ocasiões em que esse bem se
apresenta sob a forma de um pedaço de pão, de um copo d'água ou de algumas
moedas. A parábola do bom samaritano encerra uma lição que parece haver
escapado à sensibilidade contemporânea. Nosso Senhor escolheu como exemplo de
misericórdia um homem pertencente a um povo separado dos judeus por
divergências religiosas e históricas. O ferido à beira do caminho não precisou
demonstrar afinidade com aquele que o socorreu.
Bastou-lhe estar caído.
A descatolicização produziu,
entre outros efeitos, essa espécie de analfabetismo moral: usamos palavras como
solidariedade, empatia, assistência e filantropia, mas já não sabemos
relacioná-las à ordem sobrenatural da caridade. E, perdida essa referência, até
mesmo as manifestações naturais de compaixão ficam expostas às oscilações das
paixões coletivas. A política é uma das ocasiões em que essa desordem se torna
visível. O problema não está nesta ou naquela eleição, mas na facilidade com
que uma preferência contingente passa a ocupar, na consciência, o lugar de um
princípio moral.
A atual esquerda brasileira é
superiormente repugnante em suas práticas, em suas idéias, em seus métodos e em
seus falsos princípios, mas isto não nos autoriza – na prática – a condenar a
caridade na presunção de que os pedintes são "esquerdistas".
Em breves palavras, ou a
caridade tem a última palavra, ou o amesquinhamento das consciências acaba por
descer ao nível do ódio e da indiferença.
_________________________
Sidney Silveira é
jornalista, editor, escritor, professor e estudioso da filosofia medieval,
conhecido por ser um dos maiores divulgadores da Escolástica no Brasil, em
especial da Filosofia de S. Tomás de Aquino
Fonte: FB. Postagem
de 28 de outubro de 2026.


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