quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O MUNDO SEM BONS SAMARITANOS É UM INFERNO NA TERRA

 

Nota prévia:

Em si a política é uma nobre arte. Tem em vista o bem comum de todos nós. A Santa Igreja convida-nos a participar dela de modo a criar condições de vida mehor para todo o povo. Condições que também devem favorecer a prática do bem ajudando-nos, assim, a alcançarmos nosso fim último que é Deus.

A política atual, especialmente no Brasil tem nos ajudado a sermos melhores? Os objetivos políticos propostos, as promessas de campanha, os meios usados para se conseguir o poder, ou permanecer nele, têm contribuído para que pratiquemos o bem? Ou tem sido o contrário.

O prof. Sidney Silveira, em artigo que considero primoroso e comovente, mostra que estamos bem longe disso. Abandonamos até mesmo vestígios da virtude. Que tristeza meus amigos, que tristeza!

Segue o texto. (V.O)


O MUNDO SEM BONS SAMARITANOS É UM INFERNO NA TERRA

 

Sidney Silveira

Quando uma sociedade já não consegue reconhecer nem mesmo os vestígios das virtudes que abandonou, é sinal de que sua decadência atingiu um nível inquietante. No caso da caridade, não se trata apenas de deixar de praticá-la, mas de perder a inteligência daquilo que ela é, a ponto de seus arremedos mais elementares se tornarem irreconhecíveis. É como se, depois de muito tempo habituados à escuridão, os homens já não soubessem distinguir a luz nem sequer por seus tênues reflexos.

    Ocorre-me esta consideração ao ver pessoas que anunciam não mais dar esmolas a mendicantes, na presunção de que estes votaram na esquerda. Não me interessa discutir as relações entre a indigência e determinadas opções eleitorais; interessa-me algo mais grave: o estado de uma sociedade que parece haver perdido a noção do que seja a caridade cristã.

A coisa é espantosa: a política adquiriu ascendência sobre as consciências a ponto de o socorro aos necessitados ser condicionado a uma conjectura eleitoral. Assim o mendicante, antes de ser reconhecido como alguém que padece uma necessidade, é convertido em adversário, e o que deveria ser ocasião para o exercício da misericórdia transforma-se em oportunidade para uma represália.

Convém neste ponto distinguir: uma coisa é um empresário não desejar manter nos quadros de sua empresa funcionários cujas condutas contrariem os valores e os fins legítimos da instituição de que é acionista ou dono. Outra, bem distinta, é dar as costas a um pedinte por razões políticas. No primeiro caso, estão em jogo as exigências de uma comunidade de trabalho; no segundo, a disposição da vontade perante a miséria alheia.

A esmola, na tradição católica, não é um favor que fazemos aos pobres quando estamos de bom humor, nem um prêmio concedido àqueles cujas opiniões nos agradam. É uma obra de misericórdia corporal e, em determinadas circunstâncias, um dever de caridade. Santo Tomás de Aquino, na "Suma Teológica", formula a questão de saber se dar esmolas constitui matéria de preceito, e responde afirmativamente, com as distinções necessárias quanto às necessidades de quem pede e às possibilidades de quem dá. Ninguém está obrigado a distribuir dinheiro a quantos o solicitem, pois a prudência deve regular as circunstâncias da beneficência. Mas uma coisa é exercê-la; outra é batizar com esse nome a recusa de socorrer alguém por motivos estranhos à sua necessidade.

A tradição católica possui, a esse respeito, uma riqueza doutrinal hoje desconhecida. No século XVI, Domingo de Soto, um dos maiores teólogos da Escola de Salamanca, dedicou à questão dos pobres uma obra de importância: a "Deliberación en la causa de los pobres". Nela, Soto examina as restrições impostas à mendicância e os deveres da sociedade para com os necessitados. O contraste com os nossos dias é desconcertante: houve um tempo em que os maiores intelectos se ocupavam em estabelecer os fundamentos dos deveres para com os pobres; hoje, as paixões políticas parecem suficientes para obscurecer a evidência desses deveres.

A "ordo caritatis" designa o princípio segundo o qual o amor deve dirigir-se aos seus diversos objetos, tendo Deus como princípio e fim supremos. Não amamos a todos da mesma maneira, nem temos para com todos idênticas obrigações. Os vínculos familiares, as responsabilidades particulares e a gravidade das necessidades estabelecem prioridades reais. Mas essas distinções não autorizam a subordinação da caridade a paixões inferiores.

A sociedade não apenas se afastou da caridade, mas perdeu a capacidade de reconhecê-la, e isto se explica, em parte, pelo amesquinhamento do próprio conceito de caridade, que, despojado de sua natureza teologal, acabou por confundir-se com a solidariedade. Ora, esta última não se identifica com a virtude sobrenatural pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor de Deus. A caridade tem em Deus a sua origem, o seu motivo formal e o seu fim; a solidariedade, quando desligada dessa referência, pode não ultrapassar os limites de uma afinidade humana, por vezes circunscrita aos interesses de um grupo.

Ora, quantas vezes aquilo que hoje se apresenta sob o nome de solidariedade não perdoa, não suporta, não espera, não se alegra com a verdade, não renuncia ao ressentimento e não consegue reconhecer a dignidade de quem se encontra fora do círculo das próprias simpatias?

É aí que se revela a profundidade da nossa miséria espiritual: uma sociedade pode conservar instituições de assistência, multiplicar campanhas beneficentes e proclamar a sua solidariedade, sem por isso compreender o que seja a caridade. Pode até socorrer os necessitados e, não obstante, fazê-lo por motivos alheios ao amor, tanto natural quanto sobrenatural. São Paulo afirma que, ainda que distribuísse todos os seus bens para alimentar os pobres, se não tivesse caridade, nada disso lhe aproveitaria.

O próximo não perde a sua condição de próximo porque erra, porque nos contraria ou porque professa idéias que julgamos falsas. Amar alguém por caridade não significa aprovar-lhe os erros, mas querer-lhe o bem em razão de Deus. E há ocasiões em que esse bem se apresenta sob a forma de um pedaço de pão, de um copo d'água ou de algumas moedas. A parábola do bom samaritano encerra uma lição que parece haver escapado à sensibilidade contemporânea. Nosso Senhor escolheu como exemplo de misericórdia um homem pertencente a um povo separado dos judeus por divergências religiosas e históricas. O ferido à beira do caminho não precisou demonstrar afinidade com aquele que o socorreu.

Bastou-lhe estar caído.


Em tudo o que está acima dito, há uma verdade que a mentalidade contemporânea não suporta: nem tudo aquilo que possuímos nos pertence para qualquer uso que nos aprouver. A propriedade é um direito, mas não é uma soberania absoluta da vontade humana sobre as coisas. Acima dela está Deus, de quem procede todo bem criado, e cuja providência ordenou os bens materiais à conservação da vida humana. É nesse sentido que se deve compreender a afirmação que dá título a estas linhas: quem não dá aos pobres, quando está moralmente obrigado a fazê-lo, rouba de Deus. Isto não porque toda omissão de esmola constitua um furto, mas porque a retenção culpável daquilo que deveria ser destinado ao necessitado representa uma infidelidade à ordem estabelecida pelo Criador.

A descatolicização produziu, entre outros efeitos, essa espécie de analfabetismo moral: usamos palavras como solidariedade, empatia, assistência e filantropia, mas já não sabemos relacioná-las à ordem sobrenatural da caridade. E, perdida essa referência, até mesmo as manifestações naturais de compaixão ficam expostas às oscilações das paixões coletivas. A política é uma das ocasiões em que essa desordem se torna visível. O problema não está nesta ou naquela eleição, mas na facilidade com que uma preferência contingente passa a ocupar, na consciência, o lugar de um princípio moral.

A atual esquerda brasileira é superiormente repugnante em suas práticas, em suas idéias, em seus métodos e em seus falsos princípios, mas isto não nos autoriza – na prática – a condenar a caridade na presunção de que os pedintes são "esquerdistas".

Em breves palavras, ou a caridade tem a última palavra, ou o amesquinhamento das consciências acaba por descer ao nível do ódio e da indiferença.

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Sidney Silveira é jornalista, editor, escritor, professor e estudioso da filosofia medieval, conhecido por ser um dos maiores divulgadores da Escolástica no Brasil, em especial da Filosofia de S. Tomás de Aquino

Fonte: FB. Postagem de 28 de outubro de 2026.

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